Cara estranho [#66]

Estúrvio se comportava da mesma forma que as pessoas se comportavam quando ouviam seu nome. Era estranho, não tinha como negar. Cresceu daquele jeito.

Brincava estranho. Comia estranho. Cantava estranho. Vestia estranho. Falava estranho. Namorava estranho.

Os dentes do pente eram assim: tira um fica dois, tira dois fica um. Dos garfos arrancava um, sobravam três. O guardanapo era pano de louça, pano de louça era toalha de mesa, toalha de mesa era toalha de banho, toalha de banho era tapete. Café só em taça, refri em xícara. Camisa do avesso, calça cortada na canela ou na coxa, meia por fora do tênis, boné sem aba. Cantava de trás pra frente. Trocava as palavras da frase. Perguntava sem entonação. Afirmava com negativas. Beijava com a orelha.

Uns gostavam, outros odiavam. A maioria criticava com boas intenções, Estúrvio não dava bola. Que cê tem, moleque, perguntavam. E ele dizia nada, qual o problema? O problema era óbvio, só ele não via. Perguntavam quando ia mudar. Ele dizia só no aniversário. Mas nascera em julho e seu calendário tinha onze meses. Adivinha qual ele tirou?

Foi internado. Não fez berreiro, deixou levarem. Disse que não tinha nada, só não gostava do jeito que os outros faziam as coisas. Virou crime ser diferente? Ninguém respondia. No hospício começaram a imitá-lo em tudo. Emputeceu. Passou a fazer as coisas do jeito tradicional. Uns gostavam, outros odiavam. A maioria criticava com boas intenções, Estúrvio não dava bola. Que cê tem, moleque, perguntavam. E ele dizia nada, qual o problema?

Ganhou alta. Entrou em depressão. Processou o hospício; não curaram, só pioraram. Ganhou a causa, comprou um avião pequeno. Um adaptado, que boiava e não tinha asa, só motor de lancha.