Carta póstuma [#137]

“Amanhã, 8h30 da noite na estação central. Mamãe.”

Leio e releio. Envelope novo, selos em ordem e fechado com cola do carteiro, como ela sempre fazia. A data no carimbo, três dias atrás, me deixa encucado. A letra é a mesma, corrida e preguiçosa nos traços dos Ts, nos acentos. Feita com a caneta tinteiro guardada na segunda gaveta da mesa do meu pai. A dobrada minuciosa do papel, esfregado com a unha várias vezes, é um aviso afiado do conteúdo.

Mamãe morreu no dia 20 de maio de 1968, exatos cinco anos antes da postagem. Imagino de que maneira seu espírito se desvencilhou das nuvens para descer à agência dos correios. Logo desisto, não tenho paciência para superstições do tipo. Uma brincadeira de extremo mau gosto, então. Mas obra de quem? Meu irmão mora na Espanha há décadas. Tios, velhos demais para se dar a esse trabalho. Primos, nenhum deles capaz de sequer imaginar isso.

A caligrafia, a dobradura, os detalhes. Tudo remete a ela. O amanhã da mensagem é confuso, pois contando da data aconteceu há dois dias. Tento ignorar a carta, escondê-la, mas aquela linha enxuta e misteriosa me atenta.

Vencido pela curiosidade, vou à estação central. Chego cedo e me debruço sobre a grade do mezanino, perto do relógio. Quando o ponteiro marca oito e meia vasculho todos os cantos, todas as velhas, mesmo que mais gordas ou magras que a imagem gravada na memória. Às oito e quarenta apenas uma continua parada, sentada num banco próximo ao café. Desiludido, já que minha mãe era pontual, desço a escadaria e me aproximo.

- A senhora está esperando alguém?

- Sim, o meu filho.

- Por acaso marcou de encontrá-lo aqui?

- Unhun. Oito e meia.

- Escreveu uma carta a ele?

- Por que está me fazendo essas perguntas?

- Perdão, é que recebi uma carta da minha mãe pedindo para vir aqui às oito e meia.

- Qual o nome da sua mãe, rapaz?

- Maria Angélica.

- O meu também.

- E o seu filho se chama Marco Antônio?

- Isso.

- Coincidência. Será que a senhora enviou ao meu endereço, por engano?

- Eu enviei ao endereço dele. Rua Saint du Quartier, 161.

- Não, a senhora deve ter enviado à Rua Saint du Quartier, 167. Ou o carteiro confundiu o último número. Parecia mesmo um 7.

- Pode ser. Nesse caso me desculpe.

- Sem problemas. Quer que mande uma mensagem ao seu filho? Afinal, somos vizinhos.

- Não será necessário. Ele morreu cinco anos atrás.