Caspa

Bozâncio acorda na brancura do paraíso. Mas é só caspa.

A dermatologista liga e diz que teve resposta da Universidade da Califórnia. A amostra enviada despertou curiosidade e solicitam sua presença para estudos in loco por período indeterminado e remunerado. A história se repete toda manhã: travesseiro soterrado, pálpebras carregadas, chão do banheiro atapetado. Vida em sociedade somente após exaustivas aplicações de shampoo tarja preta. Animado com a perspectiva de cura, Bozâncio aceita.

No avião, sem acesso ao chuveiro por longas horas, usa uma grande touca rastafári. Na imigração pedem para retirá-la e a rajada do ar condicionado faz o resto. Testemunhas relatam se sentir dentro de um globo de neve. Passada uma semana de experimentos, a dra. Houwayn, PhD em biologia química, declara o seu o único caso conhecido da Caspa Bozantina (homenagem ao tipo de dermatite seborreica que apresentou ao mundo). A descamação nessa velocidade do couro cabeludo é inédita e procuram descobrir como o tecido subcutâneo é capaz de se regenerar tão rápido, permitindo a produção excessiva. A peculiar composição química lembra elementos encontrados nos salgadinhos de milho. A informação é vazada para um conglomerado alimentício que se interessa em adquirir amostras. A dra. Houwayn o convence a patentear o resíduo da doença antes que alguém o faça.

A Amle Chips oferece um passeio magnífico por suas instalações e propõe contrato de exclusividade para explorar a Caspa Bozantina. Atraído pelo dinheiro, Bozâncio assina. A dra. Houwayn entra na jogada e sintetiza a novidade. Após uma simples adição de amido de milho e conservantes, tostado a exatos 174 graus celsius, o Bozanchips se torna o salgadinho mais vendido no mundo. Um laboratório é construído para produzir apenas a versão feita com a caspa natural, equivalente a uísques 50 anos, figurando em eventos abastados e reuniões das grandes cúpulas do poder.

Deitado na cama mega king size, num dos 37 quartos da mansão faraônica construída em sua praia particular, a dra. Houwayn aninhada no peito, Bozâncio acorda na brancura do paraíso. E é só caspa.