Catálogo arbitrário das tuas reações

Acho que se você tivesse aqui, primeiro reclamaria do preço e depois encheria o prato de croissants e omelete e bacon e diria que, afinal, não é todo dia, não é mesmo, Rê, a gente pode fazer graça de vez em quando. Engraçado como tenho pensado nisso, nas tuas reações, tão diferentes das minhas. Vira e mexe me pego com um sorrisinho besta na boca diante do garçom, do porteiro, da caixa do mercado, eles talvez achando que tô rindo de qualquer coisa, deles, até, o que é sempre um problema, quando as pessoas acham que tamos rindo delas e não é o caso.

Gosto de vir aqui na Moinho. E de sentar nesses sofás inteiriços diante das janelas, a mesa grande pra espalhar as coisas da bolsa, a agenda e as folhas, o notebook ao lado do prato, trabalhar comendo e bebendo um suco. É minha rotina favorita pra começar o dia, e você já sabe disso. Tanto que a notificação no Whatsapp é você perguntando que suco pedi. Tamarindo.

Não é só a mesa e o espaço, é a janela também. Quem entra e sai do estacionamento essa hora do dia. Gente recebendo visita de fora e querendo mostrar o que tem de chique em Cuiabá. Reuniões informais. Pais ou mães que já deixaram os filhos na escola ou no curso e vêm tirar um tempinho pra eles, mais que merecido, bem sei. Gosto de sacar quem passa, decifrar um pouco pelo jeito que andam e se vestem e comem e pelos carros que dirigem, estacionados entre os seguranças haitianos com os apitinhos pendurados no peito.

Volto a pensar na tua reação quando chega uma encomenda no escritório, à tarde. É um buquê. Penso que você exagerou dessa vez, querendo mostrar pra todo mundo que é quem a dona do escritório de advocacia, a patroa, escolheu pra dividir a cama, porque buquê no trabalho é isso, é pros outros, não pra pessoa. Mas o buquê é pro Armando, do noivo dele. Armando, sendo o recepcionista bonachão que todo mundo adora, talvez te fizesse inventar outra resposta, pra não soar rígido. Mas eu sei o que você diria mais tarde, nós dois tomando um vinho no meu apê ou no teu, que funcionário recebendo presente no escritório é um exagero. Eu diria, direi, que isso é besteira, não tem nada de mais, acho é bom pra dar uma sacudida nas reuniões, nos telefonemas, nas petições.

É na reação, de novo, que eu penso quando troco o dia do jantar com a filha e o genro e o neto por causa da tua mensagem de que a nova temporada de The Crown na Netflix combina com margherita. É o jeito que daqui a pouco, depois que a gente trepar de novo, depois que o vinho acabar, você vai dizer e quando você vem pra cá de vez, Rê?, mais uma vez, porque o apartamento é bem grande pros dois, porque só tem uma camisola no meu lado do armário e é muito pouco. Essa risadinha de olho que você dá quando esconde um desejo genuíno na pergunta vai continuar ainda, por alguns minutos, não sei como, mesmo depois que eu responder brincando, mudando de assunto, puxando a toalha que você amarrou na cintura. Tenho pensado muito nisso.

[Drop dedicado à literatura doída, pujante e única da Elvira Vigna]