Cerpin andou pelo deserto até chegar na praia. Sentou numa elevação rochosa na orla e enquanto o céu escurecia encarou o horizonte aquoso. Toda vez que fechava os olhos ouvia vozes desconexas discutindo algo de maneira acirrada. Não entendia o que falavam. Caso se concentrasse elas silenciavam, percebiam alguém à espreita tentando desvendar suas maquinações.
Não seria boa ideia passar...
O mosquito te picou, meu rei. Rei de tudo, rei de todos. Tua vontade é lei, senhor, abençoa a mão deste teu servo, aparta uma fatia insignificante da tua disposição para retribuir a fé que tenho em vossa majestosa figura. Salve, meu rei, salve.
O mosquito que te picou, meu rei, me picou também, picou todos nós, nos presenteou com quantias abençoadas do teu sangue no nosso sangue, agora...
Cerpin ainda sentia a morfina correndo no sangue. Lembrava de mastigar bolinhas pretas e de buscar refúgio nas páginas de um livro.
Empurrou a tampa do cockpit, amebas gigantes pulsando em toda a extensão, expurgando o ar venenoso da viagem. As aranhas se desentrelaçaram, desfazendo a camada do assento, afundando-o na estrutura óssea, vértebra primordial que o acolhera. Sentiu algo escala...