Cena do crime

O detetive Cademartori encontra o corpo de Cornélio Funke boiando no rio, asfixiado com uma linha resistente ou arame, morto há três dias. É identificado pela carteira de habilitação em seu bolso. Era casado com Amanda Bluth e há um apartamento registrado em seu nome. O detetive Cademartori visita o local e interroga o síndico, descobrindo que ambos eram conhecidos pelo isolamento, sem reclamações dos vizinhos. Ninguém lembra de tê-los visto nos últimos dias. A porta está trancada e é arrombada. Ninguém no local.

No centro da sala há uma mesa com dois cinzeiros cheios, uma revista amassada, uma unha fincada na madeira, duas gotas de sangue, um punhado de macarrão com molho de tomate, um garfo de três dentes, um cabelo encaracolado.

1. A mesa possui um tampo redondo de um metro de diâmetro encaixado numa estaca de madeira de um metro e dez de altura que termina em quatro pés curvados, parafusados no chão. Possui marcas de queimadura na superfície, escoriações nas laterais, resíduos de bebidas diversas sobre o tampo, mais de quarenta chicletes grudados na face inferior. Há uma reentrância no centro causada pela queda de um prato ou travessa pesado, de lado.

2. Nos cinzeiros há mais de 200 bitucas, a maioria fumada até o limite do filtro. Em algumas há resíduos de batom. Existe uma marca consistente em pouco mais da metade, uma mordida na ponta do filtro. Todos os cigarros que não foram fumados até o fim possuem batom.

3. A revista é de moda, grossa, com mais de 150 páginas, em sua maior parte fotos de corpo inteiro de modelos. Ela está torcida em formato de U, a capa mais arqueada que o miolo. As páginas que contêm a dieta de uma atriz famosa foram arrancadas. Há o resto esmagado de um mosquito na contra-capa, na parte superior.

4. A unha pintada de vermelho está lascada, quebrada no meio, na diagonal. Ela está encaixada na reentrância da mesa, o rasgo apontando pro teto. O amarelamento na face interna é característico do uso frequente de nicotina.

5. As duas gotas de sangue estão próximas uma da outra, formando com a unha uma linha cuja próxima gota deveria estar onde a mesa acaba. A primeira gota é ligeiramente menor que a segunda, mas ambas possuem uma circunferência ovalada, sugerindo que caíram de algo em movimento que se afastava da mesa.

6. O macarrão é de parafusos que dão voltas espiraladas em torno do eixo. O molho de tomate é industrializado. Marcas de molho arrastadas por alguns centímetros, se encerrando sob o macarrão, e poucas gotículas circundando-o, indicam que foi derrubado ou jogado sobre a mesa.

7. Não há vestígio de comida no garfo. Há duas impressões digitais bem claras na empunhadura, uma maior e outra menor.

8. O cabelo tem 28 centímetros, foi arrancado na raiz e descreve um longo S na mesa, uma das pontas presa sob um dos cinzeiros. Há tintura vermelha no folículo capilar e traços de hidratante.

9. Exames revelam: a saliva dos cigarros não mordidos corresponde à encontrada nos 40 chicletes e corresponde ao DNA do cabelo, do sangue e da unha. Os demais cigarros foram fumados por uma segunda pessoa. Vestígios colhidos pela casa confirmam ambos fumantes como o casal. Exames de impressão digital revelam o mesmo nas marcas do garfo e na revista.

Dois dias depois do crime: o detetive Cademartori localiza Amanda Bluth e sua amante Isis Tomine num hotel na saída da cidade. A marca com 12 pontos na testa de Isis Tomine é resultado de pancada com um prato de louça pesado, segundo as próprias palavras. Amanda Bluth, cuja unha do indicador está rasgada na ponta, tem o cabelo cortado preto e curto, mas fotos recentes atestam que era ruiva. O batom vermelho dos cigarros é compatível com o que carrega na bolsa. Também na bolsa, enroladas nas páginas rasgadas da revista de moda, o detetive Cademartori encontra duas alianças de ouro. Nenhuma das duas é presa.

Uma semana depois do crime: o detetive Stochard encontra o corpo do detetive Cademartori e o corpo de Amanda Bluth boiando no rio. Ambos asfixiados e ambos com alianças de ouro nos dedos anelares inchados. Confuso, o detetive Stochard retorna à cena do crime mas suas investigações infrutíferas não conectam Cademartori com o casal morto e o assassino dos três continua foragido.

Um mês depois do crime: o caso é oficialmente abandonado até o surgimento de novas evidências.

Um ano depois do crime: o detetive Robalo investiga o assassinato de um pacato casal cujos corpos são encontrados boiando no rio, asfixiados. As investigações não revelam nada substancial. Fazendo a óbvia ligação com o antigo caso Funke-Bluth, Robalo percorre as fotos e as evidências armazenadas numa caixa nos arquivos da polícia. Nota uma mínima mancha escurecida sob o corpo do mosquito na contra-capa da revista de moda. Envia o material para a coleta de DNA. O resultado revela sangue humano e feminino não compatível com o de Amanda Bluth. Pressionado pela mídia, o comissário aloca Stochard para trabalhar em conjunto com Robalo e decifrar os casos. Robalo, um detetive em franca ascensão, laureado como um prodígio após a prisão de três assassinos foragidos e um carismático homem do povo, já apontado como provável sucessor do comissário, inicia uma caçada brutal com o manhoso Stochard a tiracolo. O apelo é tamanho que o maior jornal da cidade aloca sua mais notável repórter policial, que cobriu ostensivamente o caso Funke-Bluth, para acompanhá-los e produzir uma série de matérias.

A primeira coisa que Isis Tomine faz ao encontrar Robalo na delegacia no dia seguinte é confessar que é sua maior fã.