Cerveja congelada [#12]

Quando descobriram como viajar no tempo e perguntaram o que eu mudaria, disse que não deixaria uma cerveja congelar.

Riram, acharam que era palhaçada. Mas eu não tava brincando. O que você tem que entender é que não é só a cerveja.

Era noite de jogo. Coisa boba, nem final nem nada. Subi umas latinhas pro freezer e esqueci de tirar a última. Minha esposa tinha saído com as amigas, chá de bebê, se não me engano. Fiz questão de ficar porque odiava aquelas coisas. Quando chegou em casa, ela abriu uma coca e foi pegar gelo. Ondas congeladas de espuma amarela infestavam todos os cantos, resultado da latinha estourada. A briga começou. Eu era irresponsável, cuidar do nosso filho que era bom nada, o moleque só jogava videogame e comia paçoca e tava uma bola e minha preocupação era o futebol e a maldita bebida. A discussão esquentou. Resolvi dormir num hotel, esfriar a cabeça.

Me ligaram de madrugada. Ela pegou a estrada pra passar uns dias com o moleque na casa da sogra. O desgraçado do caminhão dormiu no volante. Batida frontal.

Com o tempo, que não passava, perdi o emprego. Depois a casa. Meus pais já tinham partido pruma melhor e recusei ajuda dos amigos. Fui morar na rua. Achei um terreno abandonado, travado em algum perrengue judicial. Lá ergui uma cabana e passei a pedir esmola no semáforo e cuidar de carro.

Daí os cientistas vieram. Precisavam de uma cobaia. Topei fácil. Já tinha perdido tudo mesmo. E não é que conseguiram?

Acordei no sofá como quem acorda de um cochilo. Desliguei a TV. Obriguei meu filho a sair do videogame e fazer a tarefa. Quando ela chegou, a conversa tava preparada. Pedi desculpa, chorei um monte, disse que ia mudar. Depois tudo se acertou.

Mas confesso que antes disso, no momento em que abri os olhos, mal ouvi os gritos do locutor. Tirei a latinha do freezer. Não tinha congelado ainda. Acho que foi a melhor coisa que já tomei na vida.