Cidade velha, cidade nova [#41]

Bruno achava sua cidade especial.

Crescera nela, vivera nela. Saía vez ou outra pra visitar um primo ou amigo. Passava uma semana, duas, a saudade batia, a ânsia de voltar apertava. E quando o carro/ônibus/avião andava/sobrevoava aquele labirinto de ruas, casas, prédios, postes, árvores e luzes, ele se sentia em casa. Como se pertencesse ao lugar, como se o asfalto e o concreto das calçadas refletissem algo familiar, um aspecto intrínseco de sua personalidade.

Envelheceu. Estudou. Formou. Os amigos começaram a ir embora. Especialização em cidade maior, outro país; oportunidade de emprego noutro estado, mais pro interior; namorada se mudando, vamos junto ver no que dá. Bruno ficou. Tivera muitos colegas na escola, depois no time de futsal, na aula de violão, na faculdade. Alguns se tornaram companheiros recorrentes pelas idas e vindas, mais que bebedeira e conversa furada; amigos mesmo. Agora a vida os levava embora. No fim do ano ou nos feriados um ou outro voltava, dava as caras, cantarolava as aventuras de outrora com aquele saudosismo contraditório de quem queria ter ficado mas não hesitou em partir.

No fim das contas Bruno se mudou também, pro outro lado do país. Mãe e pai ficaram. Demorou um pouco mas as novas amizades surgiram. A maioria aquela coisa dispersa, um trago ali, outro lá, mas com alguns a conversa ia noite adentro, gostos compartilhados, filmes e livros, mulheres, planos de profissão e velhice. Fez grandes e novos amigos. Casou, teve filhos.

De vez em quando voltava à cidade natal pra visitar os pais. Em algumas dessas ocasiões encontrava os antigos amigos, também passeando. Cada um tinha uma vida diferente agora, mas isso não os impedia de relembrar os velhos tempos, como faziam desde que se separaram e continuariam fazendo até a velhice, se o tempo não os separasse de vez. Bruno percebeu algo estranho numa dessas visitas: a velha cidade fazia parte da sua história, mas não se sentia mais em casa nela. Era um passeio pela geografia da juventude, pelos becos e praças da infância, mas não era mais o fim da jornada.

O que achou que não pudesse acontecer aconteceu em poucos anos; pertencia a um novo lugar. Às vezes saía à noite, mp3 player no ouvido, andando pelas ruas daquela segunda cidade, uma enciclopédia viva catalogando seus passos. Tentava achar sentido nas rachaduras da calçada, no corte das árvores, na arquitetura das lojas. Ficava ansioso pra se apropriar daquilo, chamar de seu. Pensava se todos tinham essa necessidade de realmente pertencer ao lugar em que viviam.

Comprou uma placa de madeira. Talhou, pendurou em cima da churrasqueira. Não era filósofo nem escritor, mas gostava do que lia quando batia o olho. Dizia: nossa casa levamos dentro da gente.