Contratos [#09]

No dia em que João nasceu ele assinou um contrato.

O médico pegou o dedão do seu pé, gordo e enrugado, e mergulhou numa tinta esterilizada, assinando o documento que eximia o hospital e os médicos de qualquer problema que viesse a ocorrer com o bebê.

Na escola aprendeu que passaria o resto da vida assinando contratos. Garantia era coisa do passado, ninguém oferecia mais, tudo era por sua conta e risco. Se João comprasse uma TV e ela não funcionasse não havia nada a fazer, porque assinara um contrato quando entrara na loja, dizendo que estava ciente que podia ser vítima das probabilidades. Acabar com um item defeituoso fazia parte.

A ideologia em voga era a de que acidentes e erros aconteciam, mas numa probabilidade tão baixa que a atitude reacionária era legalmente desestimulada. Advogados começaram a passar fome.

No fim de sua vida João leu a respeito do novo contrato que todo cidadão deveria obrigatoriamente assinar: a de que o governo tentaria o melhor, mas não se responsabilizava se as coisas não dessem certo. Estavam se eximindo de qualquer culpa futura.

Quando pulou de cima do prédio e se esborrachou na calçada, João tinha esquecido que assinara um contrato que obrigava os herdeiros a pagarem uma taxa vitalícia caso ele cometesse suicídio. E os filhos acabaram na pobreza.

Quando passou dessa pra melhor, João quis tirar suas dúvidas com o agente indefinido que faria sua passagem pro outro lado. Perguntou por que a vida virara essa merda, essa irresponsabilidade de todas as partes. O agente puxou do bolso um contrato antigo, amassado, e havia ali uma assinatura que João reconheceu naquele momento como a sua. E lembrou do contrato que assinara antes de ganhar vida. Dizia na última página, em letras garrafais:

SE FOR UMA BOSTA, A CULPA NÃO É NOSSA.