Corrida [#100]

Pergunta pro pintor se ele não se mata se perder as mãos. Comigo são as pernas. Correr é tesão maior que sexo, dinheiro, comida. Calço os tênis e vou pra estrada.

Os primeiros 20 quilômetros são fáceis. Remexo os braços pro sangue circular. Nos 30 dor de cabeça. Quinas do corpo ditam trilha de suor. Joelhos rangem. Até os 50 suprimo todo incômodo. Voltam redobrados. O ar queima. Torço os dentes. Em sintonia com o vento no ouvido. Nos 100 fecho os olhos e deixo a carcaça seguir.

As mãos vão primeiro. Molécula a molécula desintegrada no casulo tórrido. Braços consumidos feito cigarros tragados com força. Cabeça, o último frisar da boca arreganhada. Peito, coração arfante, costelas, diafragma, pulmões exauridos. Músculos das pernas saltam e rasgam, veias estilhaçadas, pele em tiras, migalhas pelo caminho e em seguida nada. Os pés se empurram dos solados, desencarnam do aperto suado até os ossinhos do tornozelo estourarem feito pipoca na panela, desaparecerem, escafederem, sumirem.

Ficam os tênis.