Da Inútil Vantagem de Dizer Adeus

Quando mamãe apareceu em casa, eu não soube que era mamãe. A imagem se cristalizou com as fotos que papai mostrava, de mamãe me segurando no colo ou segurando Veruska, cozinhando, trocando minha roupa, me dando banho. São poucas as memórias vivas, tão poucas que acredito serem só as lembranças forjadas de um vídeo dela que papai deixava guardado numa pasta esquecida do computador; passei a pensar depois de um tempo que tudo que eu lembrava de minha mãe era fruto daquele vídeo, e depois de assistir O Show de Truman comecei a achar que na verdade minha mãe foi uma atriz paga pra fazer aquelas fotos e aquele vídeo e depois desapareceu, e minha verdadeira mãe teria morrido no parto ou me renegado ou talvez meu pai tivesse me adotado e nem conhecesse minha mãe; enfim, a lembrança quebradiça dela era bastante sorrateira, ia e vinha, mas quando vinha não era a imagem daquela mulher de saia suja, chinelo de dedo e cabelo embarafustado que bateu na porta e pediu pra entrar e perguntou se meu nome era Alissa e me deu um abraço e disse que era minha mãe enquanto eu sentia o cecê bisonho que vinha do seu sovaco.

Eu tinha 17 anos. Tinha acabado de me formar no colégio e esperava o resultado do vestibular. Era o tipo de coisa que minha mãe me perguntaria se me visse depois de 13 anos distante, mas não foi o que ela fez. Perguntou se era de café o cheiro que sentia, pelo que entendi que tava com fome, e passei um café e servi bolo, que ela comeu inteiro enquanto me observava com atenção e absorvia minhas respostas pra perguntas como O que seu pai anda fazendo?, Ele tem carro?, Que carro é?, Ele anda saindo com alguém, voltou a se casar, tá namorando?, No que ele tá trabalhando?, Essa casa é alugada ou é dele?

Depois de comer, ela pediu pra usar o banheiro. Saiu de lá (ouvi a descarga e a porta abrindo) mas não voltou pra sala, onde eu esperava, e foi verificar a cozinha, a despensa. Quando a ouvi subindo a escadaria fui atrás, perguntei se tava tudo bem. Ela disse que queria conhecer melhor onde a gente morava. Entrou no quarto de Veruska, abriu o guarda-roupa, passou a mão pelas roupas, cheirou, alisou a cama, viu o casaco dela pendurado na cadeira, abriu a agenda na mesa, folheou e observou a caligrafia. Entrou no meu quarto e pelo jeito ia fazer a mesma coisa quando viu o porta-retrato em cima da cômoda, que tinha a foto dela me segurando no colo. Pegou aquilo e ficou travada, só mexia os olhos. Piscava e as lágrimas caíam. Depois foi pro quarto do meu pai.

Pediu uma toalha limpa, disse que ia tomar banho, pediu uma roupa minha emprestada, tava tão magra que realmente serviria. Não fui capaz de dizer que achava tudo aquilo inapropriado. Alguns minutos depois ela saiu, vestiu meu vestido, penteou o cabelo, calçou os chinelos de Veruska, desceu e começou a cozinhar. Perguntou onde tavam as coisas, a carne, os temperos, e foi fazendo estrogonofe, feijão, arroz, brócolis no vapor.

Quando papai chegou em casa do trabalho com Veruska, a mesa tava posta e mamãe, que via novela comigo na sala, levantou e abraçou os dois. Eles ficaram atônitos, como eu tinha ficado, e olharam pra mim com olhos de o que tá acontecendo. Veruska perguntou quem era ela, meu pai virou e disse que era a nossa mãe.

Sentamos na mesa, os dois aturdidos. Tentei aliviar o clima dizendo que mamãe cozinhava bem rápido, que pelo jeito não tinha perdido a mão que meu pai sempre elogiava. Aos poucos se soltaram, comeram, conversaram. Depois minha mãe lavou a louça e eu sequei e guardei enquanto os dois tomavam banho. Vimos um filme, nós quatro, sentados no sofá. Ela ficou entre as duas filhas e fez cafuné. Fomos dormir depois do filme, minha mãe no quarto do meu pai.

No dia seguinte, quando acordei, ela me esperava na cozinha. Pediu pra eu me cuidar e cuidar de todo mundo, disse que ia embora de novo, que precisava fazer algumas coisas antes de voltar pra ficar com a gente de vez. Supus que ela tinha pedido dinheiro pro meu pai, mas não perguntei nada disso. Perguntei quando ia terminar o que precisava fazer. Ela disse que não sabia, mas que ia voltar. Fui até o portão, ela me abraçou, repetiu que era pra eu me cuidar, foi andando pela rua, dobrou a esquina. Olhei de volta pra casa. Lá em cima, na janela do quarto, vi Veruska olhando pra esquina onde ela desapareceu, vi ela olhando pra mim em seguida. Ficamos ali nos encarando, eu tentando identificar se atrás do vidro, nas linhas do rosto de Veruska, que eram muito parecidas com as minhas, via as linhas da minha mãe, que eram muito as nossas linhas mesmo, e quando meu pai desceu e sentamos pra tomar café da manhã ele não conseguia olhar a gente no rosto, e eu sabia que era porque ele via as linhas de mamãe nas nossas linhas e não queria enfrentar o fato de que pela segunda vez, forçosamente, minha mãe disse a ele que precisava ir embora fazer alguma coisa, e ele nunca soube o que era essa coisa, o que talvez explique porque até hoje, cinquenta anos depois dessa visita de mamãe, a gente ainda more, todos, juntos na mesma casa: papai, eu e Veruska, nossos maridos, nossos filhos, nossos netos. Ir embora é, pra gente, uma incapacidade.