Da manufatura de caixões geometricamente improváveis

Depois que a cratera surgiu, não demorou pro povo começar a descer por umas escadarias escavadas na face das rochas e voltar com asas, escamas, duas cabeças.

A coisa pegou.

Menos pra nós.

Minha família ficou conhecida por honrar a ordem natural da vida, e de nossos antepassados até hoje seguimos incólumes, a linhagem livre de metamorfoses. Nos tornamos os únicos, isolados no centro da cidade. Quem carrega nas veias nosso sangue só pode estabelecer relação com humanos puros, e portanto grupos familiares saem em peregrinação sempre que alguém atinge a maioridade, voltando da viagem com um par a tiracolo de lugares onde a sanidade ainda impera.

O preconceito que vigorava contra os metas se inverteu. Não nos dão empregos, não cumprimentam, evitam nossa rua. Nas lojas, nos vendem com visível desgosto. Nos restaurantes, nos isolam nas mesas do fundo ou dizem que não há lugar, por mais que mesas vazias se enfileirem diante dos olhos. A maioria dos médicos não nos atende. Por isso, aprendemos a nos virar. Fazemos caixões. Os mortos não reclamam e os vivos estão desolados demais pra se preocupar com picuinhas. E fazemos isso melhor e mais barato que qualquer meta.

Aos mais velhos e experientes fica a incumbência de buscar a madeira. Há muito nos privaram da facilidade de conseguir algo das madeireiras da cidade, pelo preço exorbitante que nos cobram. Então viajamos às cidades vizinhas, o que leva alguns dias, sempre em grupos armados pra manter distantes os salteadores e as gangues violentas de metas. Os adultos em boa idade cuidam do corte e da construção dos caixões, os mais jovens do atendimento na edícula na frente do terreno, e as crianças da limpeza, juntando o pó de serra, varrendo os galpões e as casas.

O pomar se transformou numa pequena vila com a multiplicação da família. Somos atualmente 113, distribuídos em nove casas mais o casarão original, reservado sempre aos mais velhos, que ocupam os quartos com janelões no segundo andar e aproveitam o pouco vento que às vezes sopra.

Nas reuniões familiares, não raro em volta da fogueira entre as casas, alguma matriarca lê passagens do diário de nosso antepassado que primeiro testemunhou tudo. Mondalião era seu nome do meio, nome pelo qual é lembrado. Pelas suas palavras, vislumbramos a derrocada daqueles antigos conterrâneos, que se rendiam à curiosidade sem olhar pra trás. Por muito tempo ele lutou contra a própria vontade de descer pela cratera e descobrir o que os deuses mesquinhos lhe reservavam, se um benefício supremo, como conferido aos que voltavam de lá imortais, ou as deformidades que muitos carregavam a contragosto. Mas foi forte. Perseverou.

Os sonhos de migração, de uma vida onde não há exclusão e preconceito, que acometem em especial nossos jovens, são desde cedo dissuadidos com a invocação constante de nossa missão sagrada, legada por Mondalião: deve haver ao menos um foco de resistência à depravação em nossa terra, ou ela se tornará completamente maculada, e os deuses da cratera a engolirão. Ficamos aqui para salvaguardar os que nos demonizam.

E sufocar nossos próprios pecados.

Há sete anos não tiro os sapatos perto da família, nem de meus filhos, e apenas meu marido, que nasceu em outra cidade e chegou adulto, me entende e não liga pros meus pés de pedra.