Da necessidade de fluir como um rio

Já haviam se passado mais de três dias, e as pequenas hyorougan que trazia na bolsa tinham acabado. Sem as bolinhas de nutrientes, Matanari não duraria outro dia. Sentia uma sede inabalável, a garganta em brasa. Ouvia o rio, ao longe, quando o vento nas folhas e os pios dos pássaros cessavam, e o cantil seco pendurado nas costas parecia coçar, querendo se erguer, por conta própria, para alcançar a fonte do barulho. Matanari não se mexia, equilibrado nos galhos da árvore. Talvez chovesse hoje. Ele rezava há muito pela chuva.

Na cabana abaixo, a poucos metros, o homem que espionava seguia em seu ritual cotidiano, trancafiado todo esse tempo. Matanari sentia o cheiro da comida, pontualmente no almoço e no jantar, e não ouvia nada lá de dentro, o silêncio total de um homem que escrevia e costurava. Quanto tempo mais duraria sua água? Quanto tempo precisaria ficar ali, aguardando, até o homem levar o balde para encher no rio? Muito mais do que havia previsto, pelo jeito.

Foi só no início da tarde desse quarto dia, quando as nuvens pesadas já nem se viam, carregando pra longe a esperança de chuva, que o homem saiu com dois baldes equilibrados num tronco sobre o ombro, o kimono impecável pra alguém que morava há anos isolado na floresta. Matanari aguardou até que tivesse sumido atrás da colina antes de descer.

Em primeiro lugar, desarmou o pequeno disparador com a agulha envenenada acima da porta. Em seguida, foi até a mesa, pegou uma das folhas em branco e o pincel, mergulhou na tinta e desenhou rapidamente o símbolo de seu daimyō, um coelho equilibrado sobre duas pedras. Olhou pela abertura dos fundos. Ainda sem sinal do homem. Avançou para a panela, enfiando a mão e jogando o arroz frio dentro da boca. Foram cinco mãozadas que desceram ríspidas. Não havia água para ajudar. Rearmou a armadilha da porta e voltou a escalar a árvore.

Minutos mais tarde o homem retornou, andando devagar, equilibrando os baldes cheios até a boca. Entrou se esquivando da linha praticamente invisível que ativava a própria armadilha. E segundos mais tarde saiu, com a katana na mão. Olhou ao redor. Agachou e investigou o chão. Então jogou o braço pra trás. A kunai atravessou os galhos próximos de Matanari e continuou voando para se perder no campo.

Desça daí, suppa, o homem disse, encarando a árvore.

Matanari desceu, apenas os olhos à vista na roupa preta, e ficou parado sob a copa. O samurai se aproximou. Matanari finalmente viu suas feições em detalhes, as rugas crivadas na testa e sob os olhos, os cabelos e as barbas brancas em total desordem, os braços e as pernas firmes, seguros. Ele embainhou a katana.

Muito bem. Quem é você?

Matanari Omenhara, de Iga.

Por que o subterfúgio? Poderia me chamar aqui fora para conversar.

Meu senhor foi categórico ao exigir que eu o surpreendesse para ganhar sua simpatia.

Hm. O que quer de mim?

Venho a pedido do meu senhor fazer uma solicitação ao grande Kitte Hanzōmon-sama.

Aquela coruja velha não sabe que reneguei tudo, uma dádiva a mim concedida por seu pai, e agora vivo aqui feito um gafanhoto, apenas aguardando a morte, despido de qualquer obrigação?

Sabe, senhor. Ainda que um gafanhoto não escreva, costure e mantenha uma katana afiada. A urgência do momento fez meu senhor crer que o mais antigo e leal servo da família pudesse se sensibilizar.

Hm. Isso só pode querer dizer que se precipitou. Sem dúvida mandou assassinar Uramashi, achando que assim impediria qualquer ameaça. Não calculou que com o feudo de Uramashi desprotegido, Kōda se ergueria e amealharia os feudos vizinhos, saindo de seu aparente sono profundo.

Exatamente, senhor. Se me permite a curiosidade, como se mantém informado aqui nessa distância?

Não me mantenho informado. Esse conhecimento é antigo. Kōda se mantinha na defensiva ainda no meu tempo, e era previsível que apenas esperava uma oportunidade. Sem dúvida o estúpido achava que Kōda não passava de um velho gagá.

Hanzōmon-sama, não posso permitir essa ofensa ao meu senhor.

Acalme-se, Matanari-sama. Se há algo que conquistei nesses anos, é a possibilidade de chamar as pessoas pelo que elas são. O seu, o nosso senhor, é um estúpido, e não há ofensa nenhuma nisso. O seu pai era um grande líder, e estaríamos todos sem dúvida prosperando caso ainda fosse sua mão a guiar o feudo. O que o estúpido quer de mim?

Ele pergunta se há algo que pode ser feito para deter o avanço de Kōda. E se há algum conselho que pode lhe oferecer.

Sem expectativa de me tirar de minha aposentadoria?

Ele respeita a sua decisão.

Pois bem. Entre. Pela rispidez de sua voz, em pouco tempo morrerá de sede. Vou cozinhar. Vamos beber. Comer. E aí sim conversaremos.

Preciso retornar o mais rápido possível, com sua compreensão, Hanzōmon-sama.

Eu não recebo muitas visitas, Matanari. E você desarmou a agulha, mas comeu do veneno no arroz. Se eu não lhe der o antídoto, não retornará. Não tem escolha.

O grande Kitte Hanzōmon, o lendário estrategista do pai de seu senhor, principal responsável pelas conquistas e pela consequente paz em todas aquelas décadas. Matanari não achou que fosse conhecê-lo, retirado da vida pública há tantos anos. Mas certas bênçãos são ofertadas ao acaso, ele sabia. O velho samurai não havia perdido nada de sua argúcia. Sabia de sua presença ali desde o começo. E o testava.

Incrédulo e cansado, Matanari entrou na cabana.