Da travessia na noite profunda

Na primeira noite, deitamos em uma clareira. Um fica acordado, de sentinela, mas os lobos chegam sorrateiros e o homem se acaba sem escândalo com o rasgo no pescoço borbulhando sangue. Sobrevivemos, acostumados a acordar tateando a lâmina, mas a matilha leva a metade. Depois disso não dormimos mais.

Quando o sol dá as caras, enterramos os corpos e seguimos, tentando decifrar o mapa que carrego no bolso. Que ele tenha sido desenhado por um bebum que se gabou de atravessar várias vezes esse trecho maldito logo se torna uma piada de mau gosto. É com os seus pedaços rasgados que começamos a fogueira da segunda noite. Um homem vai cagar no mato e não volta. De manhã, achamos um braço.

Eu, que já havia perdido a fé, volto a rezar. O dia revigora e trotamos até os músculos das pernas travarem, mas não encontramos a cachoeira, o marco final, a essa altura relegado a lenda. A noite vem e com ela os tremores. O único que não resiste a fechar os olhos amanhece comido por formigas gigantes, escondido debaixo do cobertor.

Os restantes observam o cadáver carcomido e decidem voltar, não importa o quanto eu ache que estejamos próximos do fim. Me dão um ultimato: acompanhá-los ou seguir sozinho. Amaldiçôo sua fraqueza e meu próprio medo. Refazendo o trajeto, não consigo afastar a sensação de que a cachoeira estivesse atrás do próximo monte.

A floresta parece reconhecer nossa desistência. E continua nos despachando, mais calma e inventiva. Um tropeça, escorrega pela encosta e acaba atravessado por um galho. Outro tenta acender o fogo e queima o olho, a ferida cresce e empretece e em poucas horas ele está minando pus pela boca aberta. Outro é eletrocutado por um raio. Outro come frutas venenosas e vomita sangue. Outro se engasga com água. Sobramos apenas eu e o menor dos homens que contratei, e suspeito que é o medo, e apenas isso, que instila nele a febre que acaba por consumi-lo, delirante.

A floresta me poupa, me cozinhando no fogo baixo da adrenalina. Não durmo há dias, tomado pelo cansaço, pela sede e pela dor de cabeça. Os sussurros da noite e da mata me despertam solavancos inconscientes e começo a ganir feito um cachorro. Me arrasto como posso para regressar ao início da jornada. O cheiro é a primeira pista verdadeira. O caminho, farejado. As quatro patas batem leves no solo e finalmente mato a fome abocanhando a carne quente de um homem, junto de vários outros adormecidos em uma clareira. Sei qual será o meu fim se continuar aqui, desafiando suas lâminas, então arranco um naco suculento e me afasto para mastigar, atrás das árvores, enquanto meus irmãos lutam.

Sobram poucos de nós. Passamos a caçar animais pequenos e juntar forças para futuros ataques. Nossas fileiras engrossam. Os lobos continuam chegando.