Das desvantagens de fazer sempre o mesmo caminho pra escola

Jono, cê tá me ouvindo? Jono? Jono?

Esse guri só dorme. Pego a mochila, encho com as barrinhas de cereais, uma barra de Diamante Negro, uma garrafa de guaraná 600, amendoim sabor churrasco. Checo se eu baixei mesmo o último CD do Nação Zumbi no cel. Barbante, arame, um punhado de elásticos de dinheiro, uns clipes.

Jono? Acorda, poxa. Cutuco ele. Abre um olho só.

Fala, Andrea.

Acorda, preguiça. A gente tá atrasado.

Não tem horário. É sábado.

Levanta!

Ele vai no banheiro, lava o rosto e escova o dente. Pego umas mudas de roupa do armário, uma toalha de banho, amarro a fronha do travesseiro na alça da mochila. Vamos, Jono! Abro a janela. Vai esfriar? Olho no aplicativo do clima. Parece que vai. Pego um casaco pra ele e um velho pra mim, amarro na cintura.

Jono sai do banheiro, calça os tênis e saímos. Na beira da floresta, coloco a música e dou um fone pra ele. Por causa disso a gente tem que andar bem junto. Ouvimos o CD de cabo a rabo em loop. Os riachos são pequenos e rasos. Conseguimos pular a maior parte deles num pulo só ou então pular nas pedras. Comemos as barrinhas. Só paramos quando a fome é demais mesmo. Calculo ser perto do meio-dia. Pego os amendoins. Descansamos na sombra. O guaraná acaba. Encho com água depois.

Andrea, aonde a gente tá indo?

A gente não tá indo pra lugar nenhum, lembra? Que aí quando a gente chegar em qualquer lugar vai ser bem mais legal. Porque a gente não sabia que queria tanto chegar.

Isso é besteira. Foi aquele barbudo que você gosta que falou isso, né? Na TV?

E daí? Não deixa de ser verdade.

Andrea, quando a gente voltar vamos assistir aquele filme do Chuarzi? O que ele vira professor de escola?

A gente já viu esse trocentas vezes, Jono. O Chuarzi não é engraçado. Ele só é forte.

A gente pode ver de novo?

Depois a gente vê isso. Quer o chocolate agora?

Achamos um cajueiro com uns cajus bonitos. Como um. Digo pro Jono comer. Ele diz que tranca. Mais pra frente achamos uma laranjeira. Ele não consegue abrir a casca. Digo pra morder e abrir um buraco. Coloco algumas na mochila. Chupo uma também.

Pro meio da tarde a floresta fica mais fria. Colocamos os casacos. Chegamos no final. As árvores acabam. Olha aqui, Jono diz. Aponta uma das árvores da ponta. Olho pra cima e vejo uma casinha montada na copa. As tábuas pregadas e amarradas nos galhos. Uma janela. Uma escadinha de madeira no tronco. Engraçado, parece a que o meu avô montou pra mim quando eu era pequena.

Subimos. Tem um cobertor e um colchão. E um armário com uns livretos infantis dentro. Uma lamparina.

Comemos o chocolate. Tomamos a água. A laranja vai ficar pra de manhã. Ou pra daqui a pouco, se bater a fome. Ele senta diante da janela. Olha lá pra fora. Eu fico do lado dele. Olhando. Não dá pra ver nada no descampado. Só próprio descampado. E uma luz rala da lua. Só a escuridão, sem medida de distância, de tempo, de nada.

O que será que tem lá, Andrea? Depois do escuro?

Acho que outra floresta.

Não. Eu digo depois disso que a gente consegue ver. Será que além do escuro, quando a gente não tá olhando, não tem nada? E as coisas só aparecem quando a gente chega perto pra olhar?

Isso é papo de louco, Jono. Deita aqui. Conta uma história pra mim.

Deitamos, dividindo o travesseiro, um prum lado, outro pro outro. Nossas cabeças se encostam. Ele me dá a mão. Ficamos assim com os dedos entrelaçados enquanto ele inventa alguma história, como faz no RPG, mas sem jogador, só ele narrando, na luzinha da lamparina.

Jono? Jono? Tá na hora de ir pra aula. Levanta.

Já, mãe?

Sim, senhor. Vamos. Vai escovar o dente.

Levanto da cama, tomo o café. Vou andando pra escola. Passo na frente da casa da Andrea na esquina. Não consigo ignorar a placa de “vende-se”. Acho que vai ser melhor quando venderem. Pra eu não precisar ficar vendo o carro dos pais dela na garagem. O irmãozinho dela na grama. O cachorro dela pulando na cerca, pedindo carinho. Não é que eu queira. Mas acho que vai ser mais fácil.

  • Magnus Aziel

    Simples, inocente, tocante. Absolutamente inspirador! Parabéns pelo conto.

    • http://flashfiction.com.br/ Flash Fiction

      Valeu, Magnus! Esse foi escrito num estágio de torpor proporcionado pela trilha sonora de Stranger Things.