Dentes brancos de novela [#33]

Costa sempre teve os dentes amarelados.

Diziam que era o café, a coca, o cigarro, os remédios. Mas ele não era adepto de nenhum deles, e um dia o dentista falou a verdade: dente branco é coisa de novela. Dente normal é amarelado. Dá pra fazer tratamento, se você quiser, mas o normal é a pessoa envelhecer e o dente amarelar pelo uso. Igual ruga. Velho tem ruga, não tem?

Costa se convenceu do amarelamento dos dentes. Mas anos mais tarde estava fazendo compras quando viu uma nova pasta, fabricante russo, coisa cara pra caramba e escondida na prateleira. Tinha uma etiqueta grudada embaixo, a tradução num português miúdo. Trazia a composição e a promessa que ele aguardara por tanto tempo: dentes completamente brancos em duas semanas. Como era de fora devia funcionar, pensou. Talvez nem o dentista conhecesse a novidade. Empolgado, não deu atenção aos componentes esdrúxulos que justificavam a recomendação do tratamento por no máximo dois anos.

Comprou e não se arrependeu: quinze dias depois tinha um sorriso de refletir o sol e doer o olho. Viciara, e dois anos passaram num flash fotográfico dos dentes fantasmagóricos. Dez anos mais tarde eles caíram, um a um.

O dentista avisou-o de que não havia magia naquele sentido, e agora seria adepto da dentadura pelo que lhe restasse de vida, já que os ossos da boca estavam arruinados. Só que Costa procurava ver o lado bom das coisas, e disse que sorrira naqueles dez anos o que não precisaria sorrir pelo resto.

A dentadura amarelou depois de um tempo. Só que essa ele trocava. Levou a melhor, no fim das contas.