Deus não tinha câmera [#191]

Aureliano mergulhou no mundo do fundo das pernas da mãe com os olhos abertos.

O médico serrou o cordão umbilical, por toda a vida sua única prova incontestável de humanidade, e o depositou nos braços trêmulos do pai. Aureliano o encarou com íris negras envelhecidas que não caberiam nem por um segundo no rosto mirrado de um bebê e continuou encarando tudo enquanto mamava, enquanto dormia, enquanto ouvia as histórias contadas pela mãe na ânsia de que piscasse uma única vez e dissesse algo, emitisse qualquer ruído.

O tempo e mais nada se encarregou de fazê-lo crescer. Os olhos não mudaram, sintonizados na frequência que absorvia as pinceladas de uma paleta monumental. Viajou o planeta numa humildade de dar dó, pouco além do combustível de migalhas e chão duro para a moldura dos olhões encharcados daquela curiosidade mórbida, vasculhando o espaço numa bebedeira sem trégua.

No dia em que Aureliano se deitou pela última vez, dono do mais profundo conhecimento das curvas e reentrâncias e ângulos e dobras e texturas e cores e sombras e arestas prováveis e improváveis do mundo, ele não piscou. Parou de respirar sem dar às pálpebras uma única chance de flertar com o vento e a poeira que preencheram seus dias, e não sentiu quando os urubus se engancharam na pele e bicaram e arrancaram das cavidades os olhos duros e negros e engoliram e morreram sentindo as pedras invencíveis nos estômagos aflitos, e outros urubus repetiram o gesto nos cadáveres amigos, carregando os espólios em direções opostas.

Um deles fez seu trajeto até o meio do Pacífico, abocanhado por peixes cada vez mais frios em profundidades cada vez maiores. O outro se fez refém de pássaros robustos e galgou as mais altas paragens. Há quem profetize que um dia os olhos se reencontrarão e se unirão a um fio de carne e farão nascer do nada um novo Aureliano. No entanto não cabe mais a estes artefatos o ímpeto que os fez chegar onde chegaram. Basta resistir para provar a um futuro indizível a beleza do passado. Não são pérola de ostra nem ovo de ave mas as aparências despistam caçadores obcecados com os milagres encerrados nos lendários olhos divinos, milagres que passam desapercebidos diante de seus próprios olhos todos os dias, todas as horas.