Do chão duro que pisamos

Lembro, sobretudo, do grito da mãe naquele dia.

Tinha acabado de sair pra escola quando ouvi. Dei a volta correndo na casa e me deparei com ela segurando a linha do varal, os pés pra cima, as mãos bem fortes no arame. Ela gritava e eu não soube o que fazer na hora. O pai tinha saído. Eu já alcançava a altura do varal, mas por pouco. Larguei a mochila no chão, pisei em cima dos cadernos e da lancheira e fiquei na ponta do pé. Pedi pra ela segurar e ela se aferrou nos meus dedos com tanta força que senti as unhas entrando na carne.

Fiquei bem mais leve, fui andando devagar pra dentro de casa, com a impressão que se pulasse sairia voando com ela. Me joguei pra dentro e ela se agarrou no topo do batente, se puxou pela parede e depois grudou no teto. Ficou lá, deitada, se recuperando. Fui correndo na mercearia avisar meu pai. Ele deixou o Jonas cuidando de tudo e voltou comigo. Minha mãe continuava no teto. Peguei um copo de água com açúcar pra ela, meu pai subiu num banquinho e entregou. Viu que ela tava com febre.

O médico só conseguiu vir à noite. Ele subiu no banco, deu um remédio na boca dela, disse que era pra cuidar que se tudo desse certo ela voltava pro chão em poucos dias. Até lá, não podia deixar sair de casa, que a pessoa quando fica assim acha que sair voando é a coisa mais natural do mundo. Enrolamos ela num cobertor e dormiu com meu pai bem embaixo, na cama, respirando pesado.

No dia seguinte, acordei mais cedo, aprontei a mesa pra não dar trabalho pra ninguém e fui chamar eles pro café da manhã. O quarto tava vazio. Corri lá fora e vi que meu pai tinha amarrado o pé da minha mãe com a mangueira e amarrado a outra ponta no fogão. Ele disse que ela queria muito tomar sol. Falou que eu podia ir pra escola sossegado, o Jonas tomava conta da mercearia de novo.

Quando voltei, na hora do almoço, a mesa ainda tava do mesmo jeito que eu deixei de manhã. Vi meu pai abraçado com a minha mãe lá em cima. Gritei pra eles descerem, dei uma puxadinha na mangueira, mas me ignoraram. Naquela noite choveu e ficaram encharcados. Chamei o médico. Ele disse que agora não tinha mais jeito. Meus pais não iam melhorar.

Pro bem deles, resolvi amarrar chumbo nos pés. Parecido com ferradura de cavalo, pra prender no chão. Desde então nunca mais saíram voando, mas também nunca mais sorriram. Jonas tomou conta da mercearia de vez e deixa eu pegar comida sempre que preciso. Na escola, tenho tirado só notas ruins, preocupado. Já pensei muito em vender algo da casa pra comprar um fogão mais pesado e uma mangueira mais resistente. Mas tenho medo do que a expectativa de voltar a voar pode fazer com eles.


Este drop é dedicado aos personagens meninos do interior brasileiro de José J. Veiga, que soube palavreá-los como ninguém.