Dona de casa [#47]

  • 30 de junho de 2014
  • Categoria: Sem categoria

Angélica estava brava. É claro que estava brava. João, o marido, tivera a cara de pau de dizer que ela andava reclamando à toa. Que ele passava o dia inteiro fora, trabalhando e sustentando a família, enquanto ela ficava em casa fazendo nada. NADA.

Foi demais. Angélica disse que não queria mais saber, que agora ele teria que se virar na marra. Fez a mala e foi visitar a mãe, que implorava uma visita desde que os netos nasceram. Deixou João com a casa, os dois filhos pequenos e o cachorro. Duas semanas, disse. Antes de duas semanas eu não volto.

João não podia pedir licença do serviço. Trabalhava numa empresa de telemarketing, o dia inteiro no telefone. A rotina mudou. Agora tinha que fazer as mamadeiras e levar os dois pequenos pra creche antes do trabalho. Pelo menos tinha a creche. Almoçava na rua porque a mulher não preparava mais a marmita. Do trabalho correndo pra creche e de volta pra casa. Banho nos dois, tentando controlar as brigas, os choros, as manhas. Depois a roupa, que insistiam em não vestir. O jantar. A louça. O cachorro pra passear. Limpando xixi no chão da cozinha, desinfetante pra tirar o cheiro. Quinta à noite fez mercado e teve que pagar vinte e seis copos de vidro que os dois derrubaram esbarrando na prateleira. Um deles cortou o pé. Hospital, três pontos e choradeira quase ininterrupta por três dias seguidos. Desenho animado era o melhor jeito de fazer eles dormirem, mas na sexta quem dormiu foi ele, em pleno Pernalonga. Acordou com o barulho do celular sendo jogado na privada. Não tinha um minuto de sossego.

No fim de semana achou que teria alívio. Poderia pelo menos limpar a casa; não queria fazer feio e dar à Angélica o gostinho da vitória. Mas foi ainda pior: não tinha creche. Brincou o dia inteiro, correu, pulou, pintou, cantou, escondeu, dançou. Quando eles capotaram começou a limpeza. Terminou de madrugada mas não conseguiu dormir; o mais novo acordou chorando com dor de barriga. Domingo foram ao parque, queria que gastassem energia e dormissem cedo, mas quem se cansou foi ele, brigando com o pai de um moleque mais velho que achava que o filho podia empurrar as outras crianças. Em casa cozinhou, lavou a louça, lavou a roupa na máquina e estendeu.

Segunda-feira tinha olheiras e dor nas costas. A casa voltara a ficar imunda e ele não conseguia limpar. O cachorro fora esquecido e deixou uma lembrancinha mole no sofá. O tempero da comida era uma desgraça. Faltava coisa na geladeira. Não conseguia passar roupa, os moleques só choravam. Fechou os olhos e se concentrou. DEU, pensou, deu. Dez dias foram o suficiente. Na segunda quarta-feira da saia justa ligou pra esposa, desesperado, implorando que voltasse. Disse que iria ajudar mais, reclamar menos. Ela voltou; temia pelos filhos, não pelo marido.

Angélica chegou dizendo que dona de casa nunca tinha o reconhecimento que merecia. Perguntou se arroz brotou da panela. Se os meninos comeram, se vestiram ou se limparam sozinhos. Se a casa se arrumou num passe de mágica. Se o cachorro aprendeu a abrir a porta e andar de elevador. João, é claro, só abaixou a cabeça e ficou quieto. No dia seguinte, no serviço, foi maltratado por um cliente rabugento que xingou mãe, pai e antepassados remotos. Pensou nos filhos esperneando. Ficou fácil dimensionar a magnitude dos incômodos, sorrir e lembrar da esposa, que amava – agora muito mais que antes.