Dos meus dias de sushiman

Contraqwert tá certo. A umidade dessa cidade é uma bosta. Já é a quinta camiseta que uso hoje.

Fatio o peixe em tiras iguais. Assento na ponta da faca e jogo na chapa, cada cliente de frente pra uma. Eles temperam como preferem. Uns com cominho. Outros com pimenta do reino. Sal rosa. Ervas finas. Alho e cebola. Canela. Azeite. Quinze segundos e viro com o garfo. Começo a fatiar outro filé de peixe.

Os clientes fisgam seus pedaços com os hashis e deixam a textura macia ricochetear pelos dentes. A senhora mais à esquerda levanta. 14 pedaços. Uma cliente satisfeita. Em seu lugar senta Jonosburgo. Ele prepara os hashis nos dedos de unhas grandes.

Outra rodada, tiras temperadas, mandam pra dentro. Jonosburgo sorri, a fama do lugar não era enganação. Sim, prometo e cumpro, meu camarada.

Pego um novo filé. Fatio na linha que imagino ser até onde a infiltra pode ter corrido a essa hora. Primeira tira. As demais. Pra chapa. Chapinhar sislizante, fumaça embaça tudo. Espeto na ponta, viro. Jonosburgo tempera com azeite, embebe, escorre na chapa, sisliza, manda pra dentro. Outras duas fatias. Uma meio emburrado, meio pesado. A outra nem chega à boca. Jonosburgo cai de lado. Um garçom o ampara nos braços. Os clientes continuam mastigando. Um jovem ocupa o seu lugar. Se entreolham. Ninguém mais cai. Outra fatia, o almoço segue. Antes que engulam, junto as duas mãos, agradeço com uma mesura e peço licença. Minha suplente assume.

Desvio das mesas e dos garçons, entro na cozinha, sigo até os fundos, chego a tempo de ver Contraqwert amarrando os braços de Jonosburgo na cadeira. Pra que isso, digo, tirando o uniforme e a camiseta empapada. Caso ele acorde, ele diz. Não vai acordar, Contra, eu dosei certo dessa vez. Seguramos a cabeça dele pra trás. Abro sua boca. Puxo o cantor do bolso e coloco entre os dentes. Vai, digo, apertando o cantor.

A infiltra demora uns bons segundos. Ela surge serpenteando pela língua do homem, um tubinho gelatinoso piscando uma mínima luz amarela. Abro o cantor pra ela se esquentar ali dentro. Os dados começam a descarregar nos óculos. Passo adiante o que não serve, o café, o sanduíche e as frutas, o vinho em demasia, os amendoins. Ali. A saliva. O DNA. Envio o pacote pro laboratório. É um começo. Um ponto de partida pra reconstruir a forma que ela assumiu ontem à noite. Hoje ela não será mais a mesma, com o mesmo corpo, o mesmo cheiro, a mesma voz. Mas pra quem não tinha nada, um ponto de partida é uma vitória.

Levamos Jonosburgo pro banheiro dos clientes. Temos a clareza de espírito de esperar o homem que está lá dentro sair. Abaixamos sua calça, o sentamos na privada e encostamos a cabeça na parede. Ele vai acordar perto do horário de encerramento, sem saber como chegou ali, tonto e com fome. Pelo menos menos acordará num restaurante.

Pego minhas coisas no armário e Contraqwert já me espera no carro. Ele me congratula pela missão. Eu o agradeço pela assistência. Deixamos a cidade ao som de Queen.