Embrião [#92]

Quando ela tava de bruços, será que doía? Ficar engruvinhado naquele casulo, dava cãibra? Quando ele encostava a orelha na parede, esquentava? A comida chegava mastigada, entrava pelo tubo do umbigo, ou vinha a conta-gotas, moléculas de maçã, bife, arroz, suco, beterraba? Eu devia ficar danado quando ela comia demais, me apertava. Ou quando fazia carinho, imagina o barulho amplificado no meu estúdio acústico. Ou quando cantava, porque até hoje quando ela canta eu saio de perto.

Daí passa um tempo, tempo longo e curto quando você não tem referencial, e vem aquela luz desafiadora, te puxa, te retorce, te agarra e te bate nas costas, como quem diz Acorda meu, sua hora chegou. E você, é claro, chora porque queria ficar dormindo, mas sabe que vai valer a pena. Tem uns tropeços, mas pô, é a vida, todos passam por isso.

Corta esse tubo aí, tio.