Espinhas biográficas [#184]

  • 1 de julho de 2014
  • Categoria: Sem categoria

O inferno é um lugar onde a sensação que impera é a de que dedos vão se unir e te esmagar a qualquer momento.

É a realidade de uma espinha. Você nasce, cresce e vive sua vidinha acampada naquela inflamação gostosa, e só morre antes da hora se o seu território se enfezar e espremer o pus que te recheia.

Tem gente que tem pelo inflamado, caspa, coceira, olheira, brotoeja, vermelhidão. E não tem espinha. Lastimável. Não é mera tecnicalidade; somos importantes pontos memorialísticos na vida de um ser humano. Na verdade a natureza fez questão de antever os obituários com este processo intumescente, já que as espinhas se reúnem depois que se acabam e confabulam sobre o que colheram durante suas existências físicas e tecem tomos comentados sobre os mais variados aspectos acerca das pessoas que habitaram.

É uma pena que o quadro estético vigente nos exclua de seus parâmetros de beleza. Quanto mais recheado um rosto, mais extensa e interessante é a história que se esconde por trás dele. O que pode ser mais belo que isso?

A vida adulta acaba com muitas de nós. Em estudos acadêmicos descobrimos que na verdade isso se deve à tendência humana de se transmutar em seres previsíveis e pouco dignos de catalogação nesta fase da existência, embora existam exceções. Há mesmo um levantamento feito por nossos institutos censitários indicando que pessoas acima dos 30 anos que possuem espinhas costumam exibir semblante mais confiável e espirituoso. São espécimes dignos de atenção e nota, e como não poderia deixar de ser, elegíveis ao hall da fama dos saguões laureados e tombados das inflamações subcutâneas.

Caso possua espinhas, sinta-se honrad@. Você foi contemplad@ pelos poderes invisíveis que regem a vida e está fadad@ a grandes feitos. Ao menos já foi possível estabelecer que pessoas neste nível de favorecimento são mais dignas de possuírem biografias publicadas que no mínimo 90% do que se encontra hoje no mercado.