Exploração intrassubstancial

Eu entrei na profissão há dois anos. De lá pra cá já desenterrei a caveira (metafórica) de muita gente, testemunhei infartos fulminantes, AVCs, calafrios, chororô do mais esclerosado ao mais econômico, de largar lagriminha na dobra do dedo e engolir pigarro. Dá pra entender, claro. Fiz isso com o relógio do meu pai quando morreu e vi que há quinze anos ele pagava pensão de um irmão que eu não sabia que tinha. Essas revelações chocam a gente. Mas quem é esperto supera rápido. O meu irmão mesmo, Tonho, virou recepcionista da nossa empresa e pago ele muito menos do que deveria; família tem lá suas vantagens.

A Desencavadores® tem um calhambeque velho que lembra o dos Caça-Fantasmas, o que é uma relação mais que cabível e bacana (curto pacas os filmes), e faz as crianças correrem atrás do monstrengo branco na rua. Só não temos o adesivo do Geleia na porta que aí poderia dar problema.

Depois da garapa e do quibe com ovo na Senador Metelo, saio pra primeira chamada do dia, uma casa pertinho da praça do Cidade Alta. Uma tiazinha achou um envelope vazio metido entre as roupas do marido, falecido há dois anos. A senhora não mexeu nas roupas dele por dois anos, dona…? Emengarda, filho. Então, não mexi, né. Dava trem ruim só de chegar perto. Mas passou.

O envelope ainda liso, amarelado e com cheiro de mofo parece outro engano, caiu ali sem querer, não tem relação com nada importante. É o que mais acontece e aí resta cobrar a taxa de visita, cinquentinha, porque a pessoa não quer saber a história do objeto desde sua criação em alguma fábrica e seus dias #chatiado na prateleira de alguma loja. Fecho os olhos e seguro o envelope nas duas mãos, rastreando, rastreando.

Antônio Maricá tinha 67 anos quando comprou esse envelope. Colocou dentro uma carta, tirou, colocou outra, tirou. Na primeira pedia à esposa que assim que morresse desenterrasse do quintal uma caixinha com as pepitas de ouro que eram herança secreta do pai, e que ele escondera porque a salvaguarda até ali não fora necessária. Temia que se a notícia vazasse os filhos e os irmãos buscassem se aproveitar do gracejo que era só seu. Essa carta ele pegou e rasgou. A segunda trazia as mesmas orientações escritas de um jeito mais carinhoso, pedindo à mulher que usasse o dinheiro pra visitar a Europa, que só conhecia pela tela empoeirada do Discovery. Rasgada também. A terceira tava só na cabeça quando Antônio pulou do barco (metafórico).

Não era nada, dona Emengarda. Ele colocou um dia na pilha de roupas limpas e alguém colocou outra roupa por cima e ficou ali esquecido. Cinquenta, que é a taxa da visita. Obrigada, filho.

De madrugada a pá bate num troço duro e Tonho cola a orelha na janela do quarto da velha. Alguns segundos e me dá um joia. Tiro o resto de terra com as mãos pra liberar a caixa.

No caminho de volta Tonho pergunta o que é aquilo que eu seguro e digo que são as cinzas de um antigo dono do terreno que tava atormentando a casa. O bom é que Tonho ainda é inocente, coitado. Na caixa as minhas férias, Caribe e talvez até a Europa que o velho Maricá queria pra esposa. Não é que ela não merecesse, mas as pepitas não eram herança não.