Falha crítica no d20 [#27]

Rosvald não tinha a mínima ideia de que acabaria no meio da floresta com uma matilha de lobos sedenta em seu encalço. Mas agora eles se aproximavam, uivando e latindo, e pouco importava o que ele achava.

Antes de atravessar o portal no porão de madame Xurrest, ela o avisou que não podia prever o que havia do outro lado. Tudo era possível. Um mundo alienígena, o pós-apocalíptico no futuro distante, o passado medieval e suas guerras de sangue, naves abandonadas flutuando pelo espaço, a vila construída dentro do estômago de um gigante.

- Mas eu sou aventureiro, e qualquer coisa é melhor que a minha vida aqui – ele disse.
- A sorte pode estar do seu lado, Rosvald. Caso não esteja, não haverá tempo para se arrepender.
- Está decidido, madame. Se me permite.

A passagem pelo buraco negro orbitando no meio do porão foi estranha. Rosvald sentiu cócegas. Quando tentou se coçar se viu na floresta. E ouviu os lobos. E começou a correr.

Não havia nada naquele novo cenário que pudesse ajudá-lo, nada que oferecesse cobertura decente. As árvores eram muito toscas, difíceis de escalar. Por sorte tinha destreza alta, o que lhe permitia correr sem tropeçar em nada. A constituição era avantajada pelos anos de vida na roça, exercício constante e alimentação sadia, e enquanto mantivesse a velocidade manteria os lobos afastados. Teve força suficiente para empurrar uma pedra que bloqueava a trilha. A inteligência era mediana, mas pouco importava numa fuga desesperada que não oferecia alternativas exceto seguir em frente. O carisma, aquele carisma ingênuo que conquistara muitas jovens na vila, de nada lhe adiantaria ali. Na verdade o que Rosvald precisava, e o que não tinha, por decidir se fechar para o mundo além de sua vida tacanha, era a sabedoria para decidir não saltar do precipício, tentando vencer os 5 metros que o separavam de um pedaço de terra mais adiante, a salvação.

Enquanto despencava ouviu gritos estranhos chegando entrecortados ao seu ouvido. Vislumbrou por um instante um artefato arredondado, uma bola angulosa cheia de números com o 1 em destaque. Uma das vozes, mais familiar que as outras, clamava por misericórdia. Perto de atingir o chão e encontrar a morte, Rosvald viu o cenário se metamorfosear e um grande lago brotar da terra. Mergulhou de mal jeito, desmaiou. Quando acordou viu que fora arrastado para a margem. Madame Xurrest estava ao seu lado, assando um peixe numa fogueira.

- O que aconteceu, madame?
- Você não quis me ouvir. Eu tive que atravessar o portal, pois preciso de sua ajuda para uma tarefa muito importante…

A verdade era que o mestre ficara com pena. Mas nunca diria a verdade.

[uma homenagem aos mundos fantásticos dos RPGs]