Filho é pra enterrar a gente [#16]

Paulo Cardoso teve dois filhos. Júnior foi o primeiro. Quatro anos depois veio o Kadu.

Os dois deram problema na juventude, o de sempre, nada digno de nota. Quando acabou o colégio Júnior tomou jeito, ficou 2 anos trancafiado estudando e passou pra medicina. Dez anos depois mudou pro Rio, ganhava horrores e se casou com uma arquiteta linda. Cardoso tinha orgulho do filho. Nas festas sempre se gabava do salário do “guri”, da nora que se cuidava fazendo plástica todo ano, do neto que tava pra nascer e cursar um dos melhores colégios do país, do carro importado, do whisky que ganhara de presente quando ele foi esquiar nos Alpes.

Com o Kadu foi diferente. Pro Cardoso ele nunca amadureceu de verdade. Não se preocupava muito com dinheiro, não parecia ter ambição. Tentou montar um negócio com os amigos, foi bonzinho demais, faliu. A namorada da época do colégio cansou e largou ele. Viajou pra França, fez mochilão por 6 meses. Quando chegou não tinha mais um tostão, voltou a morar com os pais. Depois dos 30 descobriu que queria fazer cinema. Foi pra São Paulo, estudou, conheceu gente do meio, começou a fazer uns curtas independentes. Depois dos 40 acabou casando com uma atriz, uma mulher meio desvairada de cabelo curto que nunca agradou o Cardoso. Só depois dos 50 é que Kadu teve reconhecimento. Começou a ser chamado pra premiações e festivais de cinema mundo afora. Mas era uma miséria. Morava numa casinha, tinha duas filhas com a louca, nunca sobrava dinheiro pra nada.

Quando Cardoso fez 76 anos, no check-up anual, o médico foi direto: câncer no fígado. Dois meses, três se tiver sorte. Cardoso ficou arrasado. Sua esposa falecera há alguns anos e tudo o que tinha na vida eram os filhos e os netos. Assim que soube, Kadu largou a direção de um longa-metragem que levara anos pra tirar do papel, deixou a esposa cuidando da casa e do cachorro e voltou pra cidade natal, pra ficar com o pai nos seus últimos dias. Júnior disse que limparia a agenda o mais cedo possível, mas agora que era dono de uma cadeia de hospitais e um homem influente, desmarcar seus compromissos não era tão simples.

Dois meses mais tarde Cardoso deu entrada na UTI, inchado e dolorido. Num breve momento de sanidade entre as dosagens cavalares de analgésicos, abriu os olhos e viu Kadu ao seu lado na cama do hospital, segurando sua mão. Filho, ele disse, cadê o seu irmão? Ele tá vindo pai, disse Kadu, tá no avião. Cardoso respirou fundo por alguns segundos e disse filho, eu queria tanto que você fosse bem-sucedido, ganhasse dinheiro, vivesse bem. Pai, Kadu respondeu, eu tenho tudo o que eu queria ter. Dinheiro nunca foi mais importante que o resto. Eu sou feliz, por mais que você nunca tenha acreditado nisso, e não há nada que eu trocaria por estar aqui ao seu lado agora. Não tenta falar, você precisa descansar, logo o Júnior chega.

Quando Junior chegou o pai acabara de falecer. Os irmãos se abraçaram, com lágrimas nos olhos.

Não se preocupa, mano, disse Júnior, eu vou garantir que o pai tenha o caixão mais bonito, um enterro digno de filme e o terreno com a melhor vista do cemitério.

Kadu queria dizer que aquilo não faria diferença nenhuma agora. Mas preferiu ficar quieto a magoar o irmão. Cada um tinha a sua maneira de enxergar a vida. E honrar os mortos.