Filosofia de buteco [#77]

- Acho que tem uma influência neogótica.
- Não, não. Tem uma caída meio romanesca, meio reflexiva, acho que pode até mesmo puxar da Grécia antiga, aqueles mastodontes arquitetônicos cheios de curvas imponentes, a preocupação estilística com a unidade, com o continuísmo.
- É, você tem razão. Deve ser mais antigo. Os helênicos eram mesmo preocupados com isso. Mas ao mesmo tempo o tratamento da curva, da esfera, da elipse, tem essa distinção metafísica, essa busca pelo outro lado, pelo desconhecido que é um reflexo maior ou menor da interpretação do real, o mundo numênico que nos rodeia e persiste, invisível, inalcançável.
- Sim. E você percebe aquela rachadura, aqueles veios quebradiços? Eles são sintomáticos, uma crítica expressa à ruptura da nossa sociedade, uma crítica à onipresente dicotomia do velho contra o novo, desse mundo frenético de informação que quer esfacelar nosso bem-estar, nosso silêncio, nosso conforto.
- Mais que isso, eu diria. A rachadura simboliza a queda, um buraco que se abre para tragar a todos, para fazer crer que somos diminutos diante das vicissitudes da natureza, que basta um decreto natural, de ordem desconhecida e intempestiva, o naufrágio de nossas certezas num mar de incidentes incontornáveis, como diria Cefácellus, para que sejamos reduzidos a nada mais que pó, a marionetes desse mundo truculento e vil que nos dobra à sua vontade quando bem entende.

Beberam. A brecha que Leonardo aguardava.

- Opa opa opa galera, acho que eu me perdi aqui. Vocês dois tão viajando na maionese. A gente não tava falando desse meio-fio escroto da calçada?
- Exatamente, é o que estamos discutindo, ampliando naturalmente o alcance de seus significados.
- Ah não, vão tomar no cu. É um meio-fio como qualquer outro. Um desgraçado socou essa pedra aí, cimentou, acabou. Não tem isso tudo por trás, não.
- É o que você pensa, caro colega. Os detalhes revelam muito mais do que vemos a princípio.
- Não não não, para. Estamos aqui no bar, bebendo, não escrevendo tese de doutorado.
- Estamos escrevendo a tese da vida, Leonardo.

Leonardo levantou, jogou sua parte do dinheiro na mesa e foi pra casa.