Foufai publica um tratado

Fui visitar Romero, que não via desde o coquetel de lançamento do livro de Foufai, um tratado sobre os limites do espaço e do tempo, cuja magistral reputação me fez sabotar a leitura, postergando-a para um período propício quando poderia aproveitá-lo com a devida dedicação.

Romero, além de um grande amigo, era uma fonte confiável em todos os assuntos relacionados ao plano metafísico da nossa existência, e eu precisava urgentemente entrevistá-lo para complementar alguns tópicos da palestra marcada para o final do mês, cujo tema era o preenchimento material de um mesmo espaço em planos diferentes.

Romero morava na cobertura de um prédio próximo, e com minha luneta era possível ver as particularidades de muitas sacadas. Uma visão costumeira era a de Romero tomando o seu café às 6 em ponto com um jornal aberto nas mãos. Há vários dias o procurava e não o via. Cruzei a rua e pedi para o porteiro interfonar e avisar da minha visita, já que se recusava a atender o telefone. Foi o que aconteceu novamente. Um velho conhecido, de vezes em que Romero saiu apoiado do táxi em meus ombros e cambaleou até o elevador, ele me permitiu subir desde que levasse uma braçada de cartas e encomendas comigo.

Bati algumas vezes e aguardei. Testei a maçaneta. Passei a olhar os remetentes das correspondências, distraído. Entre elas havia uma caixa, enviada por um viveiro do Paraná. Ainda sem resposta, procurei a chave reserva na portinhola da mangueira de incêndio e a encontrei enfiada em uma dobra. Da porta para dentro, o apartamento parecia um pedaço transplantado da floresta amazônica. Entrei, com as correspondências debaixo do braço. Cheguei à sala, ou ao que eu imaginava ser a sala e era um emaranhado de árvores e chão lodoso, com mosquitos insistentes rondando meus ouvidos e passarinhos cantando à minha volta. Havia trilhas identificáveis, mas paredões de galhos e arbustos impediam a passagem.

Abri a caixa do viveiro e dentro havia uma daquelas enormes tesouras para aparar ramos. Com ela abri caminho.

Não levei muito tempo para chegar à cabana de Romero. Ele estava sentado numa cadeira deformada de madeira, com os pés apoiados em um tronco seco, e se assustou quando me viu brotar do paredão verde. Parecia velho, muito velho, os cabelos brancos e longos. Me cumprimentou e levou para dentro da cabana e apresentou a esposa e os três filhos pequenos. Lembro que foi um dia agradável. Pescamos no rio ali perto, ajudei a construir a casa na árvore que preparava como surpresa para as crianças, exploramos a mata até alcançar uma parede, de onde era possível ver o céu através das folhagens e sentir o cheiro salino do mar, e fizemos armadilhas para capturar uma capivara que comemos no jantar.

Só depois que os pequenos haviam dormido Romero me esclareceu as dúvidas a respeito da palestra, e pediu que eu esperasse enquanto lia as encomendas e respondia algumas, que eu deveria levar à agência postal assim que voltasse em troca da consultoria que me prestava. Hesitei longamente antes de lhe dar as costas, pensando quanto tempo levaríamos para construir uma segunda cabana, mas refiz o caminho até a porta, guardei a chave no esconderijo e desci até a portaria, onde aproveitei para quitar os aluguéis atrasados de Romero com sua produção de óleos artesanais.

Ainda voltaria a vê-lo algumas vezes, mas encontrá-lo naquele lugar me perturbava muito, me fazia repensar minha vida e questionar por qual motivo eu não a abandonava e me juntava àquela primitiva e feliz empreitada. Esse tormento me fez desistir das visitas, e depois disso minha rotina voltou à sua confortável normalidade. Finalmente li o livro de Foufai, mas decidi não ir ao lançamento de sua próxima obra e muito menos comprá-la em qualquer oportunidade, pois temia arranjar outro compromisso tão custoso quanto ler um livro que poderia, a qualquer momento, me roubar outro amigo.

  • Loreci Demeneghi

    Muito interessante!