Gente que envelhece mas não cresce [#166]

  • 1 de julho de 2014
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Cardoso é um tiozão de 64 anos, dono de uma barriga mole e dentes amarelos e assanhados. Pra simplificar a descrição psicológica: o sujeito que você NÃO apresentaria à sua filha, à sua esposa, à sua mãe.

Falta ao nosso querido personagem a substância que nos parece, de nossa distância ocidental, aquilo que todos os velhinhos japoneses dos filmes e livros têm de sobra: uma sabedoria extensa de vida, das grandes decisões e das pequenas coisas, um olhar aguçado que percorre caminhos que os jovens ignoram. O tipo de conhecimento que vem da reflexão, dos anos de observação, da capacidade analítica de aprender com os erros dos outros porque a vida é muito curta pra aprender só com os seus.

Cardosão acha tudo isso balela. Porque, veja bem, depois de criar os 4 filhos e os netos ele não tem mais que se preocupar com porra nenhuma. Sua terceira esposa, de 36 aninhos, é um avião de mulher, esperta o suficiente pra tocar a empresa que Cardoso herdou do pai, uma oficina de carros com três filiais na cidade. O que ele faz, na maior parte dos dias, é andar ombro a ombro com os funcionários da firma, avisando cada um que se cruzar um olhar demorado com a patroa o negócio vai feder, demissão é a menor das preocupações, tem uns amigos talentosos da época em que foi da polícia.

Cardosinho toca a vida com a sagacidade de um moleque. Briga com todo mundo no trânsito, dá em cima das meninas da padaria e do mercado, torra dinheiro em porcaria, bebe até tarde nos botecos, briga com a esposa por um ou outro ciúme infundado, faz rolos que não precisa com o pessoal da prefeitura pra levantar uma verba que pode dispensar, mas que afirma ser pra manter a casinha na praia onde vai todo fim de semana, compra água de coco e uísque e senta pra admirar as bundinhas firmes que se imagina apertando e mordendo, exibindo uma sunga branca, coxas flácidas e uma corrente brilhante de ouro que boia na água calma do mar apontando pro costão onde turistas tiram foto e se fartam com tigelas de açaí.

Pros filhos e netos e sobrinhos e amigos, Cardoso não dispensa conselhos, todos eles dignos de um egoísta, dinheirista e putanheiro de primeira grandeza, um homem digno de pena, por quem padres e pastores dedicam missas e cultos na tentativa de curá-lo dessa mesquinhez profana.

Pro Cardosão, os outros são todos uns tapados. É o cabra mais inteligente que conhece. Como não há ninguém pra convencê-lo do contrário, ele segue rolando os anos e enrolando as rugas, um grande, admirado e satisfeitíssimo sábio.