Imparcial [#70]

- Sério que vaiaram?
- Vaiaram.
- Não entendo esse povo.
- Eu entendo. Pensa só, o cara trabalha pra empresa. É coisa grande, quase um monopólio. Ele tem o direito de ser inteligente pra caramba, de ter opinião divergente e até de discordar das coisas que é obrigado, por contrato e pra ganhar dinheiro, a fazer. Mas o que ele representa conta muito. Sem dizer nada já tá representando alguma coisa.
- O cara tava ali como cidadão, pô. Tava falando o que achava, no horário livre dele.
- Mas não dá pra desvincular uma coisa da outra nessa hora. Por exemplo: você trabalha pra Coca. Aí me diz que Pepsi é ruim. Eu vou ficar com o pé atrás. Pode dizer que não tem nada a ver com o seu emprego, mas não dá pra desvincular assim. Você representa a marca.
- Acho isso besteira. Você me conhece. Sabe que eu seria honesto.
- Falou certo, EU conheço. Mas e quando tem que falar pro resto do mundo, quando senta numa cadeira, pega um microfone e anuncia isso? Tá entendendo? Esse negócio de imparcialidade é perigoso. No mundo que a gente vive não rola. Tem sempre interesses diversos no fundo, direcionando, maquiando.
- Quer dizer o quê com isso, que não existe imparcialidade?
- O que é imparcialidade? Como é que você julga algo sem ter passado por uma escola, seja a da sala de aula ou a da vida, e se graduado numa consciência que é sua, cheia de peculiaridades e valores próprios? Chega a ser um conceito abstrato. Se eu tiver que falar assim, da boca pra fora, diria que imparcialidade não existe. Existe aproximação. Mas opinião não é igual matemática, não é uma ciência exata.
- Não sei, eu discordo. Acho que dá pra ser imparcial.
- Me dá um exemplo.
- Essa mesa aqui. Se eu descrevo ela: é marrom, alta e larga. Tô sendo imparcial.
- Não tá. Ela é alta do seu ponto de vista. Dum pivô do basquete não é. Ela é larga comparada com o que você conhece de mesa. Com quem convive com mesa mais larga que essa vira uma coisa pequena. E ter falado marrom antes de tudo dá a impressão de que a cor é o mais importante enquanto pra outra pessoa pode não ser. Até a ordem da fala é reveladora.
- Larga mão, não dá pra discutir com você não.
- Dá, pô. A gente pode não chegar na mesma conclusão, mas isso é normal, é discussão. Amigo não precisa concordar em tudo.
- Se você tá falando. Vamos pedir a saideira?
- Vamos. Tá vendo? Concordância. É um equilíbrio.
- Equilíbrio quero ver na hora de pagar a conta.
- Porra cara, cê sabe que eu tô desempregado.