Insetos fritos [#175]

Quando visitei a Tailândia, Kum insistiu pra que eu fosse com ele na Chinatown de Bangkok, uma das ruas mais movimentadas da noite gastronômica da cidade, a Yaowarat. Sempre gostei do tempero da comida local, e a intenção era comer uma sopa de mariscos apimentados numa das barracas, um peixe, talvez uma lula. Mas ele parou em outra barraquinha, a de insetos fritos.

Besouros sem casca, gafanhotos, grilos, larvas. Centenas e centenas depositados em travessas fundas ocupando uma mesa ampla à frente de um casal de senhoras gordinhas. Alguns espetados em palitos, pendurados em suportes furados. Kum pegou uma larva e mandou pra dentro. Come aí, cara, ele disse. Fiquei um tempo olhando aquilo, turistas e locais comprando saquinhos cheios das iguarias. Peguei uma larva também, coloquei no canto da boca. Mordi, senti a crocância e os pedaços se espalhando pelos dentes.

E aí, Kum perguntou. Parece frango, eu disse. Continuei comendo. Os besouros lembravam ostra, com uma pitada de frango. O resto era frango puro. A maldição que todo bicho que não é boi ou porco ou peixe lembra frango. Demos uma forrada, Kum comprou um saco de grilos pra avó e fomos no restaurante. Comecei a passar mal lembrando as cascas cristalizadas se desmanchando na minha língua. O peixe chegou. Devorei com vontade, pra apagar o gosto dos insetos.

À noite, me revirei na cama, senti o estômago pesado, fui no banheiro, vomitei na privada. No meio daquela sopa nojenta os pedaços mal digeridos se juntaram aos poucos, chutando o peixe pra longe. As larvas fizeram uma barragem, o besouro uma cadeira, o grilo um degrau. O gafanhoto subiu, sentou e se virou pra mim. Como foi?, perguntou. A sensação de nos comer? Diferente em algum sentido?

Lembra frango, eu disse. Merda, o gafanhoto socou o ar com duas patinhas finas. Todos falam isso. Maldito frango. Obrigado por participar da nossa pesquisa de opinião. De nada, eu disse, e os insetos se desfizeram e eu puxei a descarga e voltei pra cama.