Insosso

Jonas se deu conta de que não havia nada, absolutamente nada de conflituoso dentro dele. Nem fora. De alguma forma as roupas, o corte de cabelo e o jeito de andar eram unânimes no desincômodo.

Muitas vezes se sentia resultado de um experimento realizado para demonstrar a existência de uma pessoa de medidas exatas, medidas que a excluíam do rol de preocupações da sociedade. Os pais, por toda a sua normalidade, eram fervorosos frequentadores de uma igreja batista, o que os qualificava e diferenciava.

Mas Jonas não tinha o impulso religioso e poucas vezes frequentou igreja alguma. Bebia mas não muito. Já fumara algumas vezes mas sem entusiasmo. Jogava uma coisa ou outra no computador e no celular pra passar o tempo, mas nada que configurasse vício ou fugisse das tendências contemporâneas. Tinha vários colegas, parceiros da época da faculdade, alguns do trabalho, uma namorada ou outra de tempos em tempos mas nada extravagante. O lençol da cama era sempre liso, sem estampas, como eram todas as suas camisetas, casacos e calças.

Chegou a pensar que fosse exatamente a qualidade de nulo o que atraía as pessoas. Os referidos colegas pareciam apreciar sua companhia, pois o chamavam sempre. Mas bastaram alguns segundos para recordar que nesses encontros não falava nada. Nunca pediam sua opinião e se contentavam em repetir as deles. Lembrou que nas últimas nem mesmo o olhavam. Ocupava uma cadeira na mesa, não mais que isso. Existia quando chegava e os cumprimentava e na hora de dividir a conta. Apenas.

O recém-reconhecido status de peça cenográfica foi tudo menos um choque para Jonas. Sinceridade, sabia que tudo convergira para aquilo. O pavor da morte para muitos era o esquecimento. Para ele esquecimento era margarina esfregada no pão de manhã. Graduado na obscuridade existencial foi a um culto na igreja dos pais, subiu no altar, pediu licença ao pastor e declamou um poema. No outro dia ligou e perguntou à mãe o que ela achara do poema. Ela disse que não o via há meses.

No último dia de sua vida em termos ainda reconhecíveis, Jonas tomou todos os comprimidos do vidro, ignorou os efeitos no estômago fantasma e se esquivou da foice da morte. Jogou as roupas no chão para despistá-la. Ela fungou e foi embora. Jonas foi atrás. Numa bifurcação pegou à esquerda e se aproximou do Deus descontraído que assistia o mundo numa infinidade de telas. Parou na frente, abriu os braços e gritou repetidas vezes. Deus nem piscou.

Jonas voltou à estrada e visitou a morte, que afiava a foice na poltrona. Passou um braço na lâmina e ele caiu. Não houve sangue pois as veias haviam esquecido de bombeá-lo. Nem dor, as sinapses amortecidas. A morte tampouco notou o homem que se cortava em pedaços e continuou a ignorá-lo até que meses mais tarde tropeçou a caminho da varanda onde dormia Mortín. Juntou os pedaços, fritou e jogou no prato do cachorro, que não comia há uma eternidade.

Mortín tocou com a pata, lambeu, cheirou e recusou. Se fosse pra comer, latiu, que não fosse uma comida sem graça dessas.