Laranjão

Quando Paulo Henrique fez o desenho, a intenção não era bem a praticidade, mas a memória.

A ideia era transpor e ampliar uma ponte de Tangará da Serra, cidade em que Paulo Henrique cresceu. Não chegava a dez metros de uma ponta a outra sobre um riacho, e comportava apenas um carro por vez. Depois de muito custo seu Tonho, pedreiro aposentado e amigo da família, convenceu o prefeito a bancar uma reforma. Buscou inspiração na arquitetura germânica, que conheceu numa visita ainda moleque a Blumenau, e a revestiu de tijolinhos à vista.

Em Cuiabá, a capital, Paulo Henrique esperou a estrutura ficar pronta para ver seu projeto ganhar vida. Toda a área externa, exceto os pilares, foi revestida de tijolinhos à vista. O chão da calçada e da ciclovia era de cascalho colado. Os postes de ferro retorcido, lâmpadas escondidas em carapaças difusas. O asfalto foi misturado com tinta marrom para simular a terra.

Uns adoraram. Outros arquearam a sobrancelha e questionaram o investimento. A classe artística saiu em defesa, dizendo que o valor da arte era sempre subestimado. O fato é que o monumento se tornou ponto turístico e a cidade logo se habituou à nova cria. Casais namoravam na passarela olhando o rio. Atletas de fim de semana a elegeram como pista oficial. Pedestres se demoravam na travessia, aproveitando a calçada larga e o vento abundante.

Paulo Henrique morava longe e fazia uma volta desnecessária para atravessar sua criação a caminho do escritório. Mas não reclamava. A Ponte Tonho Pedreiro era mais que um escoadouro urbano. Era um memorial para o pai que acordava cedo e saía para andar com o cachorro. Para a mãe que fazia Toddy com leite fresco. Para a escola cheia de amigos e professores queridos, para o tempo que passou e não voltaria mais, com suas goiabas e carroças e banhos de riacho e casas na árvore. Para Paulo Henrique, a ponte era uma passagem para a infância perdida.