Lenda de pescador [#102]

Toda noite sentava na soleira da porta e contava as estrelas ou lia os desenhos das nuvens. Na lua cheia fantasiava sobre a superfície sulcada até o sono chegar. Dormia e acordava mais cedo que o sol, arrumava a vara e as iscas no canto do bote, pegava o chapéu de palha, enchia a garrafa d’água, atacava o requentado e o café que a velha fazia e partia para a lida. Quando o rio ia manso, os peixes paravam e o sol dava trégua, olhava o céu. O pai era o motivo, com suas histórias sobre o disco de luzes brilhantes que dizia ter visto uma infinidade de vezes. Ele só passa despercebido porque ninguém olha pra cima, filho.

Mas ele olhava. E nada do disco.

A esposa reclamava, falava que perdia tempo demais procurando o que não existia, mas pensava que ela também não gastava seu tempo da forma mais produtiva, a cabeça sempre baixa, sem interesse no que havia além da vida humilde que levavam. De tanto olhar para longe e distanciar a mente das limitações mundanas, ele conseguia refletir melhor e mais pausadamente sobre os problemas que a vida colocava no caminho, saindo dos constantes devaneios com respostas inesperadas. Anos de dedicação fizeram-no sábio a ponto de ler o humor do mundo no ritmo do céu, embora não visse sentido em se vangloriar disso. O costume era tamanho que ao deitar fixava o olhar no teto torto de madeira. A esposa às vezes virava sua cabeça, brava. Ele ria, como se o costume de olhar para cima pudesse fazê-lo amá-la menos. E mantinha a posição, sabendo que ela lia o amor em seus olhos como ele lia o mundo nas alturas.

Custou a acreditar quando enfim viu o disco de luzes brilhantes pairando entre as estrelas, numa noite como qualquer outra. Observou-o com a reverência que um profeta dedica ao seu deus, movendo-se em linhas retas em grande velocidade, apagando e acendendo. Logo desapareceu. Agradeceu a dádiva e dormiu como se nada tivesse acontecido.

Os vizinhos perguntaram se o tão famoso disco ainda não dera as caras. A resposta continuava não. O hábito se tornara mais que hábito. Ninguém podia esperar que, pelo simples fato de ter encontrado o disco, ele parasse de olhar os céus na esperança de encontrá-lo.