Liberdade [#133]

Nabuco foi largado na vida. A mãe mesmo disse, afogada no tapete da sala, a baba de cachaça escorrendo pelo canto da boca, que ele não nasceu, saiu. Igual cuspe remexido e assoprado com vontade de jogar longe, de ver atravessar a rua e mergulhar na calçada e lá secar, crosta amarga apunhalada no cimento. Foi quando descobriu não ser bem-vindo. Não ser bem-vindo era não responder a expectativa alguma. Não responder a expectativa alguma era ser livre.

O que a liberdade significou na infância foi a satisfação do desejo irrefreável. Comia tudo toda hora, roubava se chamava atenção, batia na irmã, xingava a mãe, não tomava banho nem escovava os dentes, varava as noites fora, não estudava, passava a mão em qualquer bundinha ajeitada e só mordia a língua se fosse chiclete.

O que a liberdade significou na juventude foi a escolha do jeito mais prático de ganhar o pão. Juntou com a galera, ganhou revólver, depois rifle, depois metralhadora. Meteu tiro em muito safado falador e peitudo que arriscava a integridade de um negócio lucrativo. Comprou corrente, comprou carro, comprou casa. Ganhou respeito, depois mulher, depois filho.

O que a liberdade significou ao se tornar pai foi a perfeita ausência de paternidade. Era uns trocados pra magrelinha cujo nome mal lembrava e às vezes uma reclamação ou outra da falta de leite, da tosse, da gripe, da diarreia. E toma os trocados e engole choro e segue vida, essa coisa linda quando freio não consta no dicionário. E vem outros e outras, penduricalhos espalhados, constelação tronxa de herdeiros dessa visão abençoada de mundo, a capacidade de dizer o que serve e o que não serve como Nabuco fez e faz e tudo vai bem e se encaixa e a gente deita no travesseiro à noite com essa cara lavada de satisfação e quem sabe um pingo de perfume na barba ou no cabelo.

O que a liberdade significou quando o primeiro filho virou homem, livre como o próprio pai bradava cheio de orgulho do topo de qualquer pedestal de papelão, foi o medo, o gelo incontornável. Ele o tomou pelos ombros e agradeceu por ter acabado filho de tanta gente quanto podia lembrar menos dele e agradeceu de novo com uma facada entre as costelas e um cuspe presente da mãe couro e osso achada no fundo do rio, e Nabuco lembrou do cuspe da própria mãe que nada queria com ele, pedaço extraviado de carne, e o corpo liberto tombou e a última coisa saída da sua boca foi um fio de saliva vermelho que escorreu pela fenda na calçada rachada até a alma da terra.

  • Loreci Demeneghi

    Ainda não li todos os teus textos. Este, gostei muito!