Mais um pra pilha, só unzinho [#39]

Kaíque mal conseguia entrar no quarto. Era livro demais.

Armários abarrotados e a roupa fora. Prateleiras envergadas. Pilhas e mais pilhas bambas no chão, umas até a linha de cintura, outras até a cabeça. Uma pirâmide robusta virou cômoda; ali ficavam celular, carteira, alarme. Embaixo da cama não cabia mais nem um gibi do Tio Patinhas. Quando um dos pés quebrou nem percebeu; a cama se sustentava sozinha.

Tinha de tudo: romance, conto, poesia, gibi, guia ilustrado, dicionário, mapa, álbum de figurinhas, enciclopédia, manual de roteiro, manual de marcenaria, manual de etiqueta. Capa dura, capa mole, lombada quadrada, grampo, encadernação em couro, pocket, omnibus, absolute, widescreen, recorte e cole, xerox, espiral, no plástico, em sacola, caixa box, caixa de sapato, caixa de TV.

Colecionador não seria bem a palavra certa. Acumulador, talvez. Não havia muita seleção; tudo o que estava ao alcance financeiro/ físico Kaíque comprava/ emprestava/ pegava. Queria cultura, qualquer tipo de cultura, muito mais do que era possível consumir na velocidade adquirida. Não importava se a hora da leitura não chegasse. O importante era a obra estar ao alcance. O apocalipse podia acontecer depois da porta; ali dentro ele tinha o que precisava para passar o tempo.

Comprou iPad, Kindle, Kobo. Vendeu. Não era a mesma coisa. Precisava pegar, cheirar, sentir.

No dia da mudança sua crença foi abalada. O locador precisava do apartamento. Kaíque conseguiu outro menor e mais em conta num bairro vizinho, segundo andar. Encaixotou tudo. Fretou um caminhão. O desce e sobe lhe rendeu uma hérnia de disco. Se tocou que tinha coisa demais. Fez um limpa de cortar o coração; manteve 20%, só o fino do fino. O resto foi pruma pancada de sebo. Levantou uma grana e reformou o apê. Pensou em se tornar mais seletivo, comprar só de vez em quando.

Um ano mais tarde, não conseguia entrar no quarto.