Medicina do futuro [#101]

- Eae doutor, e essa força?
- Na paz, Inácio. Fala aí, que deu?
- Uma dorzinha nas costas, aqui no pescoço, sabe. Uma dor filha da puta mesmo.
- Aí é duro. Torcicolo? Dói pra mexer a cabeça?
- Dói, doutor, e como. Puta que pariu, como dói.
- Então. Essa merda aí deve ser mau jeito. É uma bosta mesmo, de vez em quando eu tenho. Não dormiu de um jeito diferente?
- Só durmo de bruços.
- Andou dormindo fora? Hotel? Casa de parente? Às vezes pega um colchão estranho, dá uma mudada, o corpo é uma frescura.
- Não. Minha cama.
- Sentado muito tempo? Cadeira desconfortável?
- É, pode ser. Trabalho sentado, horário comercial. Agora dei pra escrever também. Umas poesias. Relaxa a cabeça, sabe. Essa vida é vagabunda demais.
- Claro. Bom, Inácio. Talvez tenha que parar com essa merda. Ou escrever deitado. Ou ficar pouco tempo escrevendo. Exercício, faz algum?
- Tenho tempo pra essa porra não. Poesia foi a única coisa que deu pra encaixar, só uma horinha.
- Deve ser irritação muscular. Compra um dorflex, só não inventa de tomar esse caralho toda hora. Se a dor não parar em uma semana você volta, a gente vê o que é essa bosta.
- Não vai fazer exame?
- Precisa não. Só se continuar. Pelo que me contou não deve ser nada.
- Então tá, doutor, se você tá falando.
- Cuida bem dessa merda, Inácio. Dá uma descansada. Tá trabalhando demais.
- Tem que trabalhar.
- Tá certo. Vai nessa que tem gente na fila, empatar foda no hospital é zica.
- Claro, claro. Se cuida, doc, qualquer coisa a gente se topa semana que vem.
- Ou se cruza na padoca do bairro.
- É. Se bem que esse pescoço tá tão chato que vou mandar o vadio do moleque comprar pão. Não faz porra nenhuma mesmo.
- Molecada hoje em dia tá uma tristeza.
- Nem me fala. Até mais.
- Próximo! Quem é o próximo nesse caralho?