Memórias [#138]

Penso e lá estou. É uma viagem indolor e breve, como um corte de filme bem editado. Andando de bicicleta. Tão gostosa a sensação de movimento, dos pés no pedal, massageando e apertando, e o guidão nas mãos, espremido e suado. Quando eu estava sozinho; as melhores horas. Sozinho no terreno baldio atrás de casa, na grama seca, num dia de sol. Não vejo minha mãe ou meu pai, não vejo ninguém, e finjo que é tudo verdade. Daí corro, pulo, me jogo no muro, caio e levanto, alegre e gritando, batendo palmas, as lágrimas correndo.

Mas as lágrimas são no mundo real. E os sensores, captando algo escorrendo pelo meu rosto, que bem poderia ser banha quente, apitam e me desconectam do tubo de soro e sedativos. Maldição. Eu sempre me emociono.

Penso e estou na cozinha, conectado ao frame central, manipulando com descargas elétricas dos neurônios os braços mecânicos na parede, fritando um ovo, jogando sobre o arroz quente, equilibrando no garfo e depositando na minha boca.

Penso e estou debaixo do chuveiro, encaixado nas espumas, sendo desinfetado.

Penso e estou na varanda, vendo um casal de velhos caminhando de mãos dadas na beira da praia.

Penso e lá estou. Julia ao meu lado, uma mão no volante e outra na coxa, os dedos dela entrelaçados no meu, apertados. E quando o caminhão desponta na curva da serra as lágrimas rolam e me desconectam. Nunca consigo chegar ao acidente, ao som de nossos ossos quebrando naquela sinfonia, ao gosto ferroso na boca, ao grito do aço retorcido.

Penso e estou na sala, uma foto de Julia na parede rindo. Penso e estou no quarto de Bruna, o enxoval rosa da filha que nunca tivemos. Penso e lá estou, no gramado atrás de casa, um super-homem sem limites. Penso e penso e penso e penso e penso. Revejo minha mãe, uma das memórias mais nítidas, dizendo Anda, filho, levanta dessa cadeira e vai brincar.

Penso em levantar, em andar com os membros falidos de um fantasma antigo.

Mas não consigo. Só penso.