Moedas nos deixam ricos [#75]

A resposta do pai foi simples quando confrontado com mais um daqueles intermináveis “por quê?”. Disse à filha: moedas nos deixam ricos.

O significado que aquilo alcançaria na cabeça da jovem de recém-completados 3 anos era imprevisível. Ela já associava a palavra rico a coisas boas: os pais citavam amigos ricos com reverência e quando ela deixava o pote de iogurte pela metade eles perguntavam “acha que somos ricos?”. Então, obviamente, os ricos podiam se dar ao luxo de deixar quantos potes de iogurte pela metade quisessem. O raciocínio foi completado com a ideia geral que tinha das moedas. Eram objetos que mais lembravam peças de brinquedos mas por algum motivo especial os pais davam bastante atenção a elas: carregavam-nas nos bolsos, guardavam em potes robustos, diziam que não eram pra brincar, eram valiosas.

Esperou a mãe se distrair na cozinha quando o pai saiu, escalou a cômoda e pegou o cofre improvisado na caixa de joias. Elas tinham gosto estranho e eram duras, doíam a garganta, mas ignorou o incômodo e continuou. Quando a mãe a surpreendeu, já engolira cinco. Meteu o dedo na goela da menina, que vomitou ali mesmo. Contou quatro moedas no meio do lago formado sobre a colcha. Perguntou se ela engolira mais. Andressa só chorava.

No caminho do hospital, sentada no banco traseiro do carro, a garota se sentia enjoada, o gosto forte das moedas entranhado no céu da boca. Perguntou à mãe outro dos seus “por quê?” mas ela não respondeu, apavorada, tentando vencer o trânsito caótico. A menina se virou na cadeirinha e olhou pra fora, prum outdoor que trazia um punhado de moedas na mão de um homem. Ao lado da mão via o rosto de outro homem, sorrindo. Havia algo errado naquela história toda. Andressa não entendia. Mas já descobrira, na alta sabedoria de seus recém-completados 3 anos, algo muito importante.

Riqueza tinha gosto ruim e doía o estômago.