Monstro molhado [#104]

Cláudia se encolhe. Aquela lombada estranha, só no lado esquerdo, sobe e trava.

Um som distante, repetitivo e aterrador, gotas de chuva. Tudo treme. O barulho cobre a música do rádio. Na janela um monstro azul e molhado, tentáculos chicoteando, procurando brecha, tentando alcançá-la, baba pegajosa e cheia de bolhas em seu rastro. Algo rasteja pelo teto, aparece no vidro traseiro, na outra janela, em todo canto. Prestes a mastigar. Grita depois que ele passa e não ouve a mãe tentando acalmá-la.

O monstro volta. Cláudia pula de um lado para o outro. Se joga atrás do banco do motorista, puxando o tapete, grande escudo. Minúscula, tremendo e chorando, sente movimento. A lombada estranha na roda traseira.

A mãe para na conveniência. Abre a porta, pega a menina no colo. Ela se agarra feito uma aranha. Calma, filhota. Já acabou, tá? A mãe não lava mais o carro. Por cima do ombro materno, Cláudia observa os tubos azuis subjugando outra vítima, mandíbulas incansáveis, a fila reluzente de veículos incapaz de enxergar o terror à espreita. A vingança arde nos olhos da criança.

Ainda vou ser grande, monstro.