Nano vingança telefônica [#163]

- Alô.
- Oi, Antônio.
- Quem fala?
- Presta atenção, por favor. Não é propaganda nem golpe nem nada assim.
- Não tô interessado.
- Você tá de samba-canção, camiseta vermelha e chinelo de dedo, não tá?
- …
- Não adianta fechar a janela, eu não tô do lado de fora.
- Acho que você ligou pra pessoa errada.
- Não liguei, Antônio. Liguei pro Antônio de 34 anos, pai da Luiza, gerente de projetos internos da Syscopry, graduação em Greendale e especialização em Southgard. Pro braço direito de Howard Shore, presidente da Syscopry, que te contratou como gerente de projetos internos quando na verdade você supervisiona as pesquisas avançadas dos protótipos invasivos de nanotecnologia. Howard Shore é o terceiro nome falso de Guillaume Moisé, fugitivo procurado em mais de 37 países por crimes contra a natureza. Liguei pro Antônio que não vai desligar o telefone porque sabe que a essa altura a casa tá cercada e uma pasta de C4 está colada na parede a exatos 67 centímetros da cabeça da sua filha.
- Quem fala?
- É o Nip, Antônio. Nip, lembra? Nippun Yakizaha, que vocês usaram como cobaia no primeiro semestre de 2012, que testemunharam esmigalhar lentamente enquanto nano robôs burlavam a programação e desconstruíam meu fígado e meu pâncreas. Você é tão sujo quanto Moisé e sua laia, Antônio, tão sujo quanto os nazistas. Podia ter desligado o nano esquadrão a qualquer momento e eu ainda teria um corpo, não dependeria dessas malditas máquinas.
- Nip, é isso?
- Nip, Antônio. Não finja que não lembra. Você apertou minha mão, disse que tudo ia dar certo. Você fez parte disso, e agora vai pagar. Todos vão pagar. Assim que eu–
- Nip, segura a onda aí. Eu não tenho filha. Eu tô desempregado. Eu não fiz faculdade.
- Antônio Cestari, não é isso?
- Antônio Sestari, com S.
- Você não mora na Rua Andraja, 147?
- Moro na Av. Costa Souza.
- Costa Souza? Nossa. É… Putz. Foi engano.
- Foi o que eu falei no começo.
- Desculpa.
- Tranquilo. Boa sorte com a sua vingança.
- Obrigado.