Não contavam com a minha astúcia [#118]

Jon olha para cima e vê um peixe.

O peixe sopra flauta doce e a tartaruga toca sanfona. O mar é da cor do céu. Mas o mar está lá ainda, longe, do outro lado do… mar. Sementes voam e o manche é guiado por mãos desordenadas. Queda bruta. Total. Não sobrará nada, nem um osso para contar história. O macaco bate nas asas frágeis. O motor tosse, cospe gasolina pelo buraco encharcado. Roleta russa. Esse é o grande problema da situação. Olho de vidro. Tudo o que passa pela sua cabeça, por mais estúpido que seja, acontece.

O aeroplano some. Por que a fixação com a queda? Ah, sim. O vento, a liberdade.

Ele tira os óculos de sol, que crescem nas mãos, viram uma bola branca, que vira um monte de trapos e se abre. Um paraquedas. Salvo. Mas a 10 metros do chão o paraquedas rasga e ele cai. A morte. A barba, que cresce acelerada e se empilha sobre si mesma, o dono a salvo na almofada de pelos. Ao seu lado a foca bate palmas na cadeira de sol, bebericando uísque com gelo, observando por sobre o bigode de 26 fiapos.

- Achei que você não ia ao menos salvar seu traseiro.
- Vejo que ainda me subestima – as palavras são formuladas no céu da boca e enxotadas por uma pequena máquina à manivela coordenada por um gafanhoto albino movendo sua mandíbula contra a vontade.
- Muito pelo contrário – ao lado da foca um tronco velho emerge da areia, trazendo no topo um botão vermelho. Ela bate com a barbatana no botão e a tora volta a mergulhar.

Urso, leão, cobra. A mente de Jon rodopia imaginando os desafios que o inimigo pode ter convocado. Enquanto nada se apresenta entra no perigoso território das fábulas e mitos, e antes que se dê conta do erro um PÉ GRANDE é expelido da areia. O PÉ GRANDE é grande. Basquete. Sim, ele veste short e camiseta. E avança para a última jogada, a expectativa da vitória em suas costas. Bola. Jon sente o corpo diminuir e inchar, e quando já é uma esfera laranjada e o PÉ GRANDE o arremessa, vê que a cesta está longe. Ou não: ela se aproxima, a tabela correndo com pernas longas e metálicas para se posicionar onde está prestes a cair. Encaixada no aro da cesta, uma agulha envenenada brilha. Não. O time do PÉ GRANDE não pode ganhar. A maldita foca vai ter o que merece.

Jon prende a respiração e incha o corpo. A bola rebate no aro, cuspida pra longe. O PÉ GRANDE grita. Não fez a cesta. O tempo acaba, o alarme soa e a plateia insatisfeita vaia. Pessoa. Ameaçadora. Vestido para matar. Quando cai no chão já voltou a ser Jon. Agora com topete e terno invocados. Bond.

- Você não vai frustrar meus planos novamente – a foca bebe o último gole do uísque e levanta.

Casa. Casa. Casa. Casa. Droga, pensa Jon, por que isso não funciona?

- Você não está sonhando – a foca mergulha no mar.

É claro que não é um sonho, é só mais uma artimanha. Bala. Arma. Puxa do coldre o revólver, apontando-o para o mar. Perseguição. Não vai escapar assim fácil. O cano da arma alonga, a ponta quase encostando na água. Jon aperta o gatilho e é sugado para o tambor do revólver, que comprime e cospe seu corpo pelo cano. Sim, no caminho certo, pensa, mergulhando feito um míssil teleguiado na direção do ponto distante que é o inimigo.

Caça. Predador. Aproximando-se do fugitivo desavisado, sente os braços mudarem e se tornarem nadadeiras, e três fileiras de dentes afiados brotam das gengivas sedentas por sangue. Abre a bocarra no momento em que a foca percebe o perigo e já é tarde demais. Abocanha o animal com toda a força, sobe para a superfície e salta no ar. Seco. Chão. Cai no convés de um grande navio pirata esquecido. Jon, novamente homem, pousa a foca desmaiada no tablado. Agora ela está vestida com um grande sobretudo marrom, e sua respiração é quase humana. Jon vê o estrago dos dentes de tubarão e larga o bisturi, o vermelho na barriga do inimigo tingindo o tecido. Tateia os inúmeros bolsos do sobretudo, procurando. Antídoto. Antídoto. Antídoto. Acha um frasco enegrecido e tira a rolha.

Vira o líquido goela abaixo. Se encosta no mastro do navio, esperando a respiração voltar ao normal. Impedindo a mente de estender a fantasia, concentra-se no chão, nas paredes e no teto do laboratório, sentindo o antídoto agir, atento ao homem desmaiado, o inimigo. Outro corpo caído no canto, atrás da maca virada, um brutamontes, o PÉ GRANDE.

Tudo para de girar e se metamorfosear. A porta aberta é liberdade. Jon sai trançando as pernas, vitorioso.

Essa foi por pouco.