Não perca a cabeça

Acordei irritado e não quis saber do café da manhã. Passei reto pelos bolos, pães, pastéis de belém, bombas de chocolate e capuccinos e abri a porta. Fui esbarrando em quem não saía da frente.

Andei três quadras e tropecei. Caí desajeitado, de cara na calçada, ralando a bochecha, o nariz e o beiço, quase rasgando o peito que foi o freio de emergência. Irritado, tentei levantar. Nada. As mãos e os braços não tavam ali. Me contorci e rastejei até onde tropecei. Era um desnível onde duas placonas de cimento se juntavam.

Tirei as botas e as meias esfregando os pés, e com os dedos puxei a ponta de uma placa prum lado, a outra pro outro. Elas abriram com aquele cheiro horrível que o cimento faz quando você torce ele. Todo mundo resolveu atravessar a avenida e fingir que eu não tava ali fazendo o que eu fazia. Irritado, abri o suficiente pra passar uma pessoa e pulei.

Caí na água sem as pernas. Irritado, enchi os pulmões de ar pra não afogar. Boiei pelo rio subterrâneo, jogando o peso de um lado pro outro pra desviar das pedras. Quando cheguei na orla, quase na areia, afundei. Eu era só cabeça.

Uma mão me pegou pelo cabelo. Cuspi água, irritado, e tossi até sair tudo da garganta. Quando fui jogado na areia vi que era minha mão. Fiquei um pouco mais aliviado, pensando que nenhum motivo era suficiente pra eu agir daquele jeito. Fiquei admirando os contornos da caverna, a praia subterrânea, as cabeças que chegavam ali perto e afundavam, sem ninguém pra resgatá-las. Olha ali, pensei aliviado, o tanto de gente morrendo à toa, e eu tô vivo.

Aos poucos voltaram as pernas e o outro braço. Eles se arrastaram pelos dedos, sem pressa, e colaram de volta. Nem fiz questão de me mexer logo de cara. Acho que até tirei um cochilo, aliviado.

Quando voltei fui consertar a calçada. Todos na rua me encaravam de lado. Fui fraco mesmo, oras, me julguem. Alisei o cimento e juntei uma placa na outra, dessa vez sem desnível, com aquele cheiro adorável que o cimento faz quando você desdobra ele.

Chego em casa na hora do jantar. Mas quando tô aliviado perco a fome. Passo reto pelos pastelões, escondidinhos, lasanhas, pizzas e sucos de laranja e deito na cama. Esqueço que se eu não como à noite acordo irritado.

  • Loreci Demeneghi

    Muito bom!