Negrume [#119]

- Oi, Leandro. Vê o meu remédio de pressão alta, por favor.
- Claro, dona Rosa. Aqui.
- Obrigada. Como é que tá a família?
- Tudo bem. Na verdade a Jerusa tá dando um trabalhinho.
- O que ela fez?
- Tá fazendo ainda, dona Rosa. Tá namorando um preto.
- Que é isso, Leandro? Não se fala mais isso. É afro-descendente.
- Que seja, a cor é a mesma.
- Mas que coisa, o que o guri fez? Preto, branco, amarelo, é tudo gente, não é?
- É, mas não é igual, a senhora sabe.
- Como assim, eu sei? Você é muito preconceituoso. Vê se para com isso. E se ele falar que não gosta de você por que é gordo?
- Eu posso emagrecer.
- Ah não, Leandro. Põe a mão na consciência, meu filho. Você não tá batendo bem. Tá uns dois séculos atrasado.

- Oi, vó.
- Oi, menina.
- Como foi lá?
- Normal. Tá vendo como consigo ir sozinha ainda?
- E o pessoal da farmácia?
- Tão bem. Mas a filha do Leandro tá namorando um negrume.
- Nossa Senhora.
- Tô te falando. E criou ela tão bem.