O chaveiro [#190]

  • 1 de julho de 2014
  • Categoria: Fantasia

O cliente bufou.

Paciência, disse o chaveiro. É o que falta à juventude. Tudo se resolve se o tempo for cultuado como merece. Velho, o garoto retrucou, arrumando a bandana na testa, se parar de falar vai terminar mais rápido. Um sorriso brotou na boca do homem curvado sobre a máquina, atento aos contornos de uma chave que ainda não existia. Tudo bem. Fique à vontade.

O garoto olhou em volta. Balcão de vidro, paredes brancas, teto mofado. Se contentou com o chão de cerâmica sem notar os glifos soterrados pelas próprias vestes. Fechou os olhos, sentindo as pernas cansadas da viagem. Cochilou.

Acordou com o velho sentado na sua frente, entre ambos uma xícara fumegante num pires. Beba, o chaveiro disse, lhe fará bem. Bebeu em um único gole, parando muito depois que a última gota já havia escorrido pela garganta. O que colocou aqui dentro? Um pouco de tudo. E a chave? Terminei enquanto você dormia, e agradeço o tempo que me deu ou ela não seria mera sombra do que se tornou. Como assim?, o rapaz levantou, tateando a bandana. Ela caiu aos pedaços, carcomida. Quantas horas eu dormi? Dois anos, disse o velho. Mas valeu a pena.

Dois anos? Empalideceu. Impossível dormir tanto. Ah, nada é impossível, disse o chaveiro. Aqui está. Sobre a palma repousava a chave de osso lixado. O rapaz a pegou e saiu esbaforido. Depois o velho tirou do bolso uma chave idêntica e encaixou na parede. Uma moldura de porta se deslocou com um sopro. Empurrou e entrou novamente na oficina. Diante de si estava o garoto, o punhado de marfim na cumbuca entre os dedos. Uma chave, ele pediu, uma chave para salvar meu reino.

O velho depositou o pó na máquina e a fez em menos de um minuto. Entregou ao rapaz já sem bandana, a barba enorme, o cabelo no meio das costas, um vinco de espera solitária na testa. Viu-o sair feliz. Parou na porta, esperando o próximo cliente. Sorriu, um sorriso dois anos mais novo que seu último sorriso.