O longo pergaminho [#72]

O imperador Confábulo VI, no alto do trono blindado contra a truculência do povo, finalmente se rendera às solicitações pecaminosas de sua concubina amada, a fogosa Marie Dolores, consentindo em assinar o tratado que selava o futuro de tantos povos. Mas Marie, como era costumeiro, interrompeu-o abrindo as pernas na mesa, atraindo-o com seu sexo juvenil e incansável. Confábulo VI voltaria ao tratado horas mais tarde e o terminaria numa sofreguidão imensa, observando a amante provocá-lo mesmo dormindo, suas curvas ensolaradas em destaque sobre a seda. No dia seguinte quis apresentar o resultado daquele esforço literário a sua nobilíssima esposa, Rouxinéia IX, uma poeta habilidosa,

“Eu, o rei Confábulo VI, venho através desta declarar que a partir deste momento todas as terras de nosso reino passam a ser–”

e teve sua leitura interrompida pelo sopro da corneta, que anunciava o exército inimigo fechando o cerco sobre o palácio. Confábulo VI rapidamente enrolou o pergaminho, fez um nó com um cadarço e lançou-o nos braços do mensageiro, que disparou no lombo do cavalo pelas estradas apinhadas de perigo até o reino vizinho, onde o aguardava o rei Rabalioh II, o misericordioso. No meio do caminho uma flecha vindo sabe-se lá de onde atingiu-o entre as costelas. Caído do cavalo, retirou o nó e tomou conhecimento da importante mensagem pela qual fora atingido,

“Eu, o rei Confábulo VI, venho através desta declarar que a partir deste momento todas as terras de nosso reino passam a ser–”

e morreu antes que pudesse prosseguir. Seus dedos moles deixaram escapar o pergaminho, que foi carregado pelo vento até o casebre de Emerich XII, um príncipe renegado morando no labirinto selvagem na divisa dos reinos com sua esposa Gouvérbia III, uma nobre falida e esquecida. Emerich XII achou o pergaminho no meio da folhagem no quintal, abriu-o e começou a ler

“Eu, o rei Confábulo VI, venho através desta declarar que a partir deste momento todas as terras de nosso reino passam a ser–”

quando ouviu o chamado para o almoço, um pernil de javali assado e chucrute, palmitos e aspargos no molho de beterrabas. Enfiou-o no bolso e se fartou, movendo em seguida seu pesado barrigão até a cama, onde iniciou uma longa cochilada. Gouvérbia III notou o pergaminho enfiado no bolso do amado, depois de lavar a louça, e estirou-se ao seu lado no colchão, abrindo-o e lendo

“Eu, o rei Confábulo VI, venho através desta declarar que a partir deste momento todas as terras de nosso reino passam a ser–”

e dormiu, porque afinal trabalhara a manhã inteira e estava com um sono lascado.