O troll social em: fechada no trânsito [#29]

Carol não gostava muito de dirigir, mas era o jeito.

Tinha um Gol velho, duas portas, mancha de óleo no estacionamento. Ela se considerava barbeira. Já admitia logo de cara quando o assunto surgia, na conversa que fosse, como se isso pudesse absolvê-la quando chegasse a hora de fazer barbeiragem. Não era falta de coordenação ou prática; Carol era desligada. O sinal abria e estava de olho fechado cantando Whitney Houston. Esquecia de dar a seta para fazer a curva. Trocava de pista sem olhar no retrovisor. Não soltava o freio de mão. Uma vez atropelou um homem atravessando na faixa porque lia um outdoor.

Ontem ela fechou um sujeito barbudo, grande demais pro Chevettinho cor de lama que dirigia. Ele meteu a mão na buzina por uns cinco segundos. No quinto Carol mostrou o dedo, não tinha sangue de barata. O homem não gostou. No primeiro semáforo ele emparelhou o carro e lançou um olhar atravessado pelas janelas abertas, sem piscar o olho, balançando a cabeça. Carol ficou tão incomodada que fechou a janela do Gol. O homem começou a segui-la. A cada curva que fazia ele estava lá, colado no para-choque. Ela já era naturalmente nervosa no volante, e aquilo piorou a situação. Perdeu a noção do caminho que fazia, subiu no meio-fio, começou a dar voltas, passou por lugares que não conhecia. O barbudo vinha logo atrás. Ela gesticulava dentro do carro, pedia desculpa em voz alta, implorava a Deus que aquele homem a deixasse em paz.

Acabou chegando no distrito industrial. Os nervos estavam à flor da pele. Ela tremia, quase não conseguia passar a marcha, suava frio. Finalmente se rendeu, tendo a perspicácia de escolher uma rua movimentada; diminuiu e parou no acostamento. Ele parou logo atrás. Carol saiu do carro gritando desculpa, perdão, eu não te vi, não sei onde tava com a cabeça. O homem esticou o braço para fora da janela aberta. Entre seus dedos largos havia um cartão branco. Carol o pegou e leu. Dizia simplesmente “Rogério, encantador de cobras”. O homem, sem desfazer o olhar ameaçador, deu a ré e partiu. Carol ficou ali no acostamento, desamparada, olhando o cartão.

Dentro do Chevettinho cor de lama, Rogério, o Troll Social, sorriu.


*Uma vez o troll social se estressou com o vizinho. Confira AQUI.