Vigia caseiro [#76]

  • 30 de junho de 2014
  • Categoria: Sem categoria

De suar e esfregar e varrer e espanar ninguém gosta. Gosta é de ver a casa limpa, cheirando e tinindo. Mas se não dá pra terceirizar não tem atalho, é mão na massa.

Daí pode acontecer como aconteceu comigo. Passando o pano você repara bem no piso. O corte dos azulejos, o desenho intrincado, gretas de cimento entrecortadas criando uma grande palavra cruzada. Nota as ranhuras e tenta decifrar. Percebe números, não tradicionais ou romanos, mas riscos, como os que um prisioneiro faz numa cela, numa disposição estranha do 1 ao 13. Toca os azulejos com a haste do rodo, na ordem. E depois da décima-terceira cai de bunda observando eles se redimensionarem, liberando uma abertura estreita, degraus abocanhados pela escuridão.

Você desce, percebendo que a passagem é antiga e pouco usada. No fim um platô de pedra polida dá pruma porta entreaberta vazando música tribal. Abrindo vê um salão repleto de apetrechos eletrônicos, caixas de sons, fios, tomadas, telas nas paredes e teto e no meio de tudo uma poltrona. Sentado nela, a cabeça caída, um duende, um pequeno ser troncudo e barbudo vestido com o abadá que você jogou fora ano passado. Ele ouve o barulho e acorda e o observa curioso. As telas mostram a sua casa em todos os detalhes e numa delas você se descobre dentro daquele salão, assustado.

Quando o duende levanta você ergue o rodo. Ele ri, diz que é mais lógico ele ter medo de você do que você dele e que Não era pra isso acontecer, mas pô, já que chegou tão longe e vivo sozinho, puxa uma cadeira aí, e ele procura um arquivo no computador, na pasta 4 Anos, e você se vê criança ao lado de uma babá cujo rosto não traz lembrança alguma e ele te cutuca e diz Essa aí, que aconteceu com ela?, puta merda, eu era fã.