Oratória [#200]

Locutor de Deus foi o primeiro apelido.

Estreou na igreja da cidade. Todo domingo o padre separava alguns trechos da Bíblia. Eram breves, mas os fiéis quebravam as regras para aplaudir a leitura. O pai juntava as mãos agradecendo aos céus. Anunciava que o filho faria sucesso desde pequeno, falaria para as multidões, e o Justo não desapontou.

A fala era natural para Maldonado. Abria a boca e os outros fechavam, ouviam, aplaudiam. Cresceu encorajado, emocionando estranhos à sua volta. Cansado do direcionamento profético, se afastou da igreja. Adaptou a carreira, buscando as palavras certas.

Maldonado Líder nasceu. Palestrante requisitado, anfitrião de auditórios abarrotados. A mensagem era o acúmulo de tudo que já ouvira. Procure felicidade nas pequenas coisas. Mude para melhor. Valorize quem te valoriza. Abra o coração para o amor. Satisfaça a alma, não só mente e corpo. Leia mais, vibre mais, viva mais. O segredo é superação. Perdoe o passado. Planeje o futuro. Não confie no amanhã, confie no hoje. Celebre a família, celebre os amigos. Carpe diem.

O dinheiro era bom, influência e poder um vício. Mas não entendia o apelo. O que dizia que as pessoas já não soubessem? Não havia nada de novo. Nada. E compravam livros, assistiam vídeos, discutiam as colocações como quem discute os grandes filósofos. Tremiam, choravam, ardiam de expectativa enquanto as palavras entravam azeitadas nos ouvidos, enquanto gesticulava com força, o dedo uma batuta, pedindo mudança, pedindo satisfação, pedindo aquilo que todos já conheciam mas pareciam redescobrir a cada performance feito crianças esquecidas.

Em seus últimos dias, Maldonado concluiu que o dom era uma maldição. Estava rico, famoso, rodeado de filhos, netos e amigos queridos. Mas sua voz, considerada das mais fortes do planeta, não foi mais forte que a do pai.

O que ele queria era ser pintor.