Pais [#220]

- Bom dia. Pra onde?
- Hotel Deville.
- Isaac Póvoas, né?
- Acho que é, tem outro Deville na cidade?
- Verdade, não tem. Quer que abra a janela? Desligue o rádio?
- Não, deixa o ar ligado, essa Cuiabá é quente demais. O rádio não me incomoda.
- Tudo bem.

- Veio a negócios?
- Não. Meu cunhado mora aqui.
- Olha, que legal. Quantos dias?
- Uma semana.
- Dá pra conhecer bem tudo.
- O que tem de bom pra fazer?
- Muita peixaria boa. Lá na beira do rio no São Gonçalo, ou em Bom Sucesso. Churrascaria. Tem o Choppão, tomar escaldado de madrugada. Dá pra visitar a Casa do Artesão, andar no Centro, no Porto, ver as casas antigas. Se tiver peça do Nico e Lau vale a pena, a cuiabanada em ação, xomano. Gringo ri que se acaba.
- Bacana.
- No interior tem coisa bonita. Passear em Chapada dos Guimarães, cachoeira, trilha. Jaciara, rafting. Nobres, mergulho. Lá pros lados de Poconé, pescar no Pantanal.
- Vou ver com o cunhado.

- Desculpa intrometer, mas o senhor tá indo pro hotel e disse que o cunhado mora na cidade.
- Mora. Ele ainda não sabe. Minha esposa veio passar um tempo. Brigamos. Tô fazendo surpresa.
- Ave Maria. Desculpa perguntar.
- Nada.

- É sempre assim demorado o trânsito aqui?
- Ah, depois que começaram as obras pra Copa tá assim. Qualquer horário é ruim.
- Que saco, hein.
- Poisé. Deixam pra fazer perto do fim, aí paralisam a cidade toda.
- Sei. Tem filho, Seu…?
- Lourival.
- Tem filho, Seu Lourival?
- Dois homens já. Um advogado. O outro taxista também.
- Seguindo os passos do pai.
- Não foi falta de conselho.
- Heh.
- E você, …?
- Marcos. Não tive filho ainda. Vamos ver.
- Ela não quer?
- Então. Quer mas não pode engravidar. Não quer adotar também, tava entrando em depressão.
- Tenho um casal de amigos que adotou, a mulher era estéril.
- Eu sei. Ela tem medo. Acha que os pais biológicos vão querer de volta depois.
- Os pais biológicos não podem fazer isso.
- Eu sei. Tem outras coisas. Ela fica com medo do preconceito, sabe. De descobrirem que não somos os pais de verdade. Que somos diferentes. Os amiguinhos da escola vão ficar apontando dedo.
- É. Criança é um bichinho cruel às vezes. Mas se não tentar nunca vai saber, né não?
- Eu sei.

- Chegamos, seu Marcos.
- Beleza. 47 e 25. 47 paga, né?
- Paga sim.
- Toma aqui. Tá trocado.
- Brigado. Boa sorte com a esposa.
- Valeu, seu Lourenço. Até a próxima.

- Oi, Bruno.
- Oi, Marcos.
- Vem cá, não quero que você fique assim.
- Por isso veio escondido e ficou no hotel? Por que não me ligou, disse que tava vindo?
- Queria fazer surpresa. Pensou no que a gente conversou?
- Claro que pensei. Só pensei nisso desde que vim pra casa do meu irmão.
- E aí?
- Ah, Marcos. A criança vai sofrer preconceito pra caramba.
- A gente também sofre. Mas as coisas tão melhorando. Vamos tentar, vai. Você quer tanto isso.
- Acha mesmo?
- Se não tentar a gente nunca vai saber.