Passatempo

- Paiê, só tem um pacote.
- Tem dois, a mãe comprou ontem.
- Só tem um de Passatempo. O outro é Negresco.
- Cada um pega um.
- Eu quero Passatempo.
- Eu também.
- Dá.
- Não.
- Dá.
- Não.
- Renner e Luiz, dividam o pacote, os dois. Nem mais um pio. Dá e sobra pra vocês. Lá em casa a gente vê se tem mais.

- Paiê, ele comeu a última bolacha.
- Não comi, não, você que demorou pra comer a de cima.
- Ele comeu.
- Mas já não comeram que chega?
- Ele comeu, ele comeu.
- Não comi, não comi, não comi, não comi.
- Chega! Se tiverem com fome abram a Negresco.
- Não gosto.
- Nem eu.
- Tá bom. Vocês não gostam mas eu gosto. Renner, abre e dá uma pra mim. Brigado. Hummm, que delícia.
- Paiê, o Renner não quer me dar uma.
- Ele falou que não queria.
- Você também, e tá comendo. Me dá.
- Não dou.
- Me dá.
- Não dou.
- Me dá.
- Jesus Cristo! O que eu já falei? Renner, dá a bolacha pro seu irmão, ele também quer.

- Paiê, o Renner mordeu a bolacha e colocou de volta no pacote.
- Não quero mais. Ele também não quer, cuspiu no banco.
- Luiz! Que que eu já falei de cuspir comida fora?
- Tava ruim. Muito ruim.
- Cuspiu. Porco. Porco. Porco. Porco. Ai! O Luiz me bateu!
- Ele tava me chamando de por– Ai!
- Parem, os dois! Agora! Se não se comportarem vão chegar em casa e vão direto pra cama!

- Paiê. O Luiz arrotou.
- Não arrotei, não.
- Arrotou, sim. Cheiro de Passatempo.
- Não é. Cheiro de Negresco. Você comeu a mais, não me deu a última. Não tem como eu arrotar esse cheiro, comi menos. Você que vai arrotar Passatempo.
- Não vou.
- Vai.
- Não vou.
- Vai.
- Não vou.
- O QUE! QUE! EU! FALEI!? SANTO PAI!

- Oi, Beto. Oi, crianças.
- Oi, mãe.
- Oi, mãe.
- Uai, Beto, que cara amarrada é essa? Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada.
- Tá bom. Mas por que tá dirigindo tão rápido?
- Nada, amor.
- Por que parou no mercado?
- Cíntia, pelo amor de Deus, pega esse dinheiro. Vai lá e compra tudo de Passatempo. Tudo.
- Você tá bem, Beto?
- Vai. Vai.